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Diz-me quem te defende e dir-te-ei quem és.

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 imagem da tradicional placa azul de "AL" (Alojamento Local) afixada em propriedades da Igreja é o símbolo perfeito de uma inversão profunda de valores na Madeira. O contraste é chocante e legítimo, bens imobiliários que foram doados por fiéis, muitas vezes em atos de profunda fé, generosidade e com o propósito expresso de ajudar os mais desfavorecidos, estão agora a ser transformados em máquinas de fazer dinheiro à custa do turismo. Quem diz AL também diz bens doados que são vendidos e chegam a escolas privadas.

Quando a própria instituição eclesiástica decide entrar no mercado do arrendamento turístico de curta duração, ignorando a grave crise habitacional que asfixia a Região, o sinal que envia à sociedade é devastador. Mais do que isso, confirma-se na narrativa do poder. Talvez não existam pobres, talvez não exista sem-abrigo, só bêbados.

Quem deixa uma casa ou um terreno à Igreja em testamento, fá-lo geralmente com a convicção de que esse património servirá uma causa nobre, tem a certeza de que não será desiludida na inconsciência da morte. Depois de em vida usar um bem decide entregá-lo para apoiar os pobres, acolher os desalojados, financiar obras sociais paroquiais ou dar teto a quem precisa.

Ao colocar essas moradias e apartamentos no circuito do AL, a Igreja abdica do seu papel de almofada social para se comportar como um fundo de investimento imobiliário comum.

Numa altura em que os madeirenses não conseguem encontrar casas com rendas compatíveis com os salários regionais, ver a Igreja preferir os euros dos turistas ao teto dos locais é uma machadada na sua própria credibilidade moral. Em vez de ser parte da solução para a crise da habitação, a instituição torna-se parte do problema.

O egoísmo do "umbigo" é sintoma de quem apoia esta novel Igreja de insensibilidade social. O comentário que surge na imagem, "AL para os madeirenses é um crime", resume o sentimento de revolta ao contrário, colocando a atitude errada da Igreja como o coitadinho da questão, mas também atrai a habitual reação defensiva daqueles que só conseguem olhar para o próprio bolso e defendem-se com a Igreja tal como muitos governantes visados pela Justiça. A Igreja vai-se tornando um antro incumpridor, ignora voluntariamente o impacto social deste modelo. Para estas pessoas, a habitação não é um direito fundamental, mas sim uma mercadoria pura.

A Igreja parece que agora é o pobre que se autoalimenta. Está pior do que no passado? Depois de tanto poupar nas indemnizações dos seus pecados carnais contra crianças?

Se até a Igreja se rende à febre do ouro do Alojamento Local e esquece os propósitos beneméritos de quem lhe confiou os seus bens, a quem podem os madeirenses recorrer?

A conversão de património paroquial em AL não é apenas uma questão de gestão financeira, é um sintoma da perda de orientação ética. Uma Igreja que se quer próxima dos que sofrem não pode fechar as portas aos filhos da terra para abrir o trinco eletrónico ao turismo de luxo. É tempo de exigir que o património doado por espírito de caridade volte a servir, verdadeiramente, o bem comum e o povo da Madeira.

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