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A sintonizar estações...

Os CTT ainda vão chorar por trabalho.

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I

ndiretamente será a União Europeia a endireitar dos CTT. A reconfiguração das regras fiscais e alfandegárias da União Europeia para o comércio eletrónico internacional está prestes a desenhar um novo mapa logístico global. O fenómeno das compras online baratas com origem na China (vistas em plataformas como a Temu, Shein ou AliExpress) enfrenta agora a barreira do fim definitivo de isenções e de novas taxas ambientais e aduaneiras. No entanto, o verdadeiro impacto desta mudança não se medirá apenas no bolso do consumidor, mas sim na radiografia das falhas estruturais de operadores logísticos históricos, como os CTT – Correios de Portugal.

Com o fim da correspondência, eram as encomendas a aguentar o negócio dos correios, depois de um insucesso como banco. Agora, o fim do "oásis" digital e a queda do caudal vai ensinar os CTT como a arrogância das vacas gordas vai dar vacas magras. Sem que ninguém tenha pena que se extinga.

Durante anos, o modelo de negócio do e-commerce asiático baseou-se na subsidiação dos portes e na fuga criativa às malhas fiscais europeias. Com o aperto do cerco por parte de Bruxelas, que visa proteger o mercado interno e penalizar a pegada ecológica do fast-shipping, o volume brutal de encomendas falsamente etiquetadas como "prendas" ou abaixo do valor de taxação vai sofrer uma contração inevitável.

Para os CTT, este decréscimo de encomendas traz consigo uma ironia profunda. O operador histórico português destacou-se, nos últimos anos, por uma incapacidade crónica de adaptação ao boom digital. Em vez de uma modernização musculada, assistiu-se a uma gestão de merceeiro e à escravização dos funcionários ao ponto de ninguém querer ir para os CTT.

A montante temos as relações tensas e processos burocráticos rígidos com vendedores internacionais e outros operadores postais. A jusante temos milhares de clientes transformados em reféns de linhas de espera intermináveis, processos de desalfandegamento opacos, taxas de "apresentação à alfândega" abusivas e atrasos sistemáticos na distribuição.

Agora, com a retração natural do mercado devido às novas taxas da UE, o caudal de encomendas vai finalmente diminuir. Por uma ironia perversa, os CTT acabarão por ficar "dimensionados" para a procura, não porque a empresa teve a visão estratégica de crescer e modernizar a sua estrutura, mas porque o mercado encolheu até caber na bitola da sua própria inércia.

O reverso desta moeda é a perda de soberania económica e de receita fiscal para o Estado português, impulsionada pela rigidez dos CTT e da própria alfândega nacional. A máquina aduaneira portuguesa ganhou a fama internacional de ser um "buraco negro" burocrático. Sabendo disto, os grandes consórcios logísticos e os próprios vendedores chineses contornaram o problema há muito tempo através do princípio da livre circulação de mercadorias no espaço comunitário.

Em vez de enviarem os pacotes diretamente para Portugal, as plataformas optam por fazer entrar a mercadoria através de entrepostos na Alemanha, Países Baixos, Bélgica ou Espanha. Nestes países, as alfândegas são automatizadas, os correios locais adaptaram-se ao volume em tempo recorde e o processo de desalfandegamento demora minutos, não semanas. O resultado prático é devastador para a economia nacional. Os impostos e taxas aduaneiras (mesmo as novas taxas da UE) são liquidados e retidos nos cofres desses países de entrada.

Depois de nacionalizada na Europa, a encomenda entra em Portugal como "correio comunitário". Aos CTT resta apenas o trabalho pesado e menos rentável de fazer a entrega de "última milha" (last mile), sem que o país tenha retido um único cêntimo do valor alfandegário gerado por aquele consumo.

A nova era do comércio eletrónico europeu vai expor a nu as consequências de se gerir uma infraestrutura crítica nacional com mentalidade de curto prazo, o lucro obsceno furtando-se a serviço. Ao optar por pôr empresas, parceiros e clientes em lista de espera, os CTT não só abdicaram de liderar a revolução do e-commerce na Península Ibérica, como empurraram os fluxos financeiros para portos mais ágeis.

O ajustamento que se segue não será fruto de mérito ou planeamento, será o resultado de um mercado que se cansou de esperar e encontrou formas mais inteligentes de circular. No entanto, resta saber a resposta europeia para o e-commerce. Mas nunca será a preços chineses de conveniência.

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