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A Revolta da Madeira.

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 Revolta da Madeira, em 1931, não foi um acidente nem uma explosão sem causa. Foi o resultado previsível de uma política cega, centralista e socialmente brutal. Numa ilha já ferida pela crise económica, pela falência de casas bancárias, pela quebra das remessas da emigração e pela fragilidade de uma economia dependente do exterior, Lisboa decidiu ainda apertar mais o laço. Primeiro veio a asfixia financeira. Depois, a arrogância administrativa. Por fim, a fome.

O chamado Decreto da Fome teve esse mérito perverso: mostrou, sem máscara, o que valia o discurso do poder quando confrontado com o pão. A importação de farinha foi travada, o preço do pão disparou e o desespero saiu à rua. A Revolta da Farinha foi a primeira resposta. Não nasceu do excesso, mas da carência. Quando o Estado falha no básico, a ordem deixa de ser virtude e passa a ser provocação.

Mas a Madeira era também um barril de pólvora política. A presença de deportados e opositores da ditadura transformou a indignação popular em organização militar. O que começou como revolta social ganhou forma de levantamento armado. A 4 de abril, o Funchal caiu nas mãos dos revoltosos quase sem resistência inicial. A Junta Revolucionária foi o sinal de que o arquipélago deixara de aceitar, em silêncio, o papel de colónia interna governada por despacho e distância.

A resposta de Lisboa foi a resposta típica de regimes inseguros: navios, aviões, intimidação e propaganda. A expedição militar procurou esmagar a revolta com superioridade material, enquanto o Cubango, adaptado para transportar hidroaviões, simbolizou a modernidade posta ao serviço da repressão. Não faltou tecnologia; faltou legitimidade. E é sempre esse o defeito fatal dos poderes que confundem autoridade com domínio.

A campanha terminou com a rendição de 2 de maio, mas a derrota militar não apagou a verdade política. Veio a perseguição, a deportação e o exílio. Centenas pagaram com a liberdade o simples facto de terem resistido. O regime limpou o terreno, puniu os dissidentes e acelerou o caminho para o Estado Novo, como se a violência resolvesse o que apenas agravava.

A lição é antiga e continua actual, quando o centro governa como se a periferia fosse um problema e não parte da nação, acaba por produzir revolta. Quando a fome se junta à humilhação, o silêncio deixa de ser possível. E quando o poder responde ao sofrimento com baionetas, o que ele revela não é força; é medo.

A Madeira conservou a memória desse momento como sinal de dignidade e aviso histórico. A revolta não foi apenas contra um decreto. Foi contra uma ideia de poder que ignora pessoas, trata a pobreza como estatística e responde à injustiça com disciplina militar. O resto é história, mas uma história que ainda fala alto demais para ser varrida para debaixo do tapete.

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