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Por onde começamos?
Para construir um argumento técnico irrefutável sobre o overtourism e a insustentabilidade do modelo atual na Madeira, é preciso desconstruir a ilusão dos números absolutos. Olhar apenas para a área total da ilha engana, pois a esmagadora maioria do território é montanha e floresta protegida. O verdadeiro sufoco acontece onde as pessoas, os carros e os turistas se esmagam mutuamente. Você e eu sentimos isso todos os dias e não é um acaso.
- Os 2,2 milhões de turistas para 250 mil habitantes é um ponto de partida, mas ganha ainda mais força quando convertido em pressão turística diária equivalente. Se dividirmos o fluxo anual pela permanência média (cerca de 4 a 5 noites), significa que, em qualquer dia do ano, há uma "população flutuante" permanente de dezenas de milhares de turistas na ilha. Isto eleva a população real diária para níveis muito superiores à capacidade de carga das infraestruturas básicas (água, saneamento, recolha de lixo). É o rácio turista-habitante (a pressão demográfica) que se sente na falha da recolha do lixo, a Meia Serra que não comporta mais, as ETARs que com tratamento primário têm falhas constantes, é preço da água a aumentar como uma ameaça aos fracos vencimentos dos madeirenses para disponibilizar a estrageiros, a rede viária, saúde, etc.
- A área total da ilha da Madeira é de aproximadamente 741 km². Se fizermos a conta simples (250.000 hab / 741 km²), obtemos uma densidade populacional teórica de cerca de 337 hab/km². Parece aceitável, mas é falso. Cerca de 2/3 da ilha (aproximadamente 60% a 67%) correspondem ao Parque Natural da Madeira, Laurissilva e à cordilheira central montanhosa, onde a construção e a habitação são proibidas ou geograficamente impossíveis. Quer dizer, vamos ver o que vão inventar nos PDM's.
- A população e a atividade económica concentram-se numa estreita faixa costeira e nas encostas a sul, que somam pouco mais de 200 km² a 250 km² de área efetivamente habitável e urbanizada. Quando esprememos os 250.000 habitantes mais a pressão turística nesses 250 km², a densidade real salta para mais de 1.000 a 1.200 pessoas por km² nas zonas de fixação. No concelho do Funchal, este número dispara para valores urbanos extremos, comparáveis a grandes metrópoles europeias, mas num território insular ultraperiférico e isolado. E não param de "insistir" em alojamento local.
- Onde a insustentabilidade se torna mais visível no dia a dia é na estrada. A Madeira vive um fenómeno de pinça: Frota Local em Crescimento + Milhares de Carros de Aluguer (Rent-a-Car) = Estradas e Parques Saturados.
O crescimento do turismo obrigou a um aumento brutal da frota de carros de aluguer. Destruíram a solução de tours de autocarro, agora cada turista tem que ter o seu carro. Nas épocas altas (parece que é contínuo) milhares de viaturas adicionais entram em circulação diariamente nas mesmas vias utilizadas pelos residentes para irem trabalhar.
Como a topografia obriga a que as vias de acesso (como a Via Rápida) sejam autênticos funis, qualquer fluxo extra bloqueia o sistema. Na cidade e na ilha abandonamos outras vias a afunilamos na Via Rápida e não há espaço para crescer. O resultado é o caos no trânsito à entrada do Funchal e o estacionamento selvagem junto a levadas e miradouros (como o Pico do Arieiro ou o Ribeiro Frio), onde a natureza está a ser literalmente asfixiada pelo metal.
Já estamos com indicadores de implosão por insustentabilidade e ninguém se atreve a dizer. Se ninguém quer travar o crescimento, o sistema atingirá o ponto de rutura através de quatro vetores:
- Imobiliário excludente: o alojamento local e a pressão de compra estrangeira empurram os locais para fora das poucas áreas habitáveis, gerando uma crise social onde a classe média e os jovens não conseguem viver na sua própria terra.
- Saturação de recursos: escassez de água potável em períodos estivais e ETARs a trabalhar acima da capacidade máxima, colocando em risco a qualidade das águas balneares.
- Degradação da experiência (já é evidente): o turista que procura a "Pérola do Atlântico" pela natureza e tranquilidade encontra filas de trânsito, ruído e trilhos transformados em passadeiras humanas. Acho que devo incluir a animosidade crescente dos locais. O overtourism destrói o próprio produto que vende.
- Risco de segurança: centenas de carros retidos em estradas de montanha estreitas ou pessoas aglomeradas em falésias criam um cenário de pesadelo para a proteção civil em caso de incêndio florestal, temporal ou derrocada. Mas a pressão no aeroporto pouco amigável é outra e arrepia-me falar do tema, fiquemos pelo que pode acontecer com dias consecutivos de vento, inoperacionalidade e stress das companhias...
Vai acontecer algo de muito errado. Lembre-se no momento do meu texto.
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