
Isto vai ser uma opinião sobre uma notícia, o conteúdo de uma notícia.
O cabaz está sempre a subir,
mas tal como no combustível,
arranjaram uma maneira de criar fumo.
E
A primeira grande falha metodológica (e a mais escandalosa) está descrita logo nas primeiras linhas do artigo e nas notas de rodapé. O estudo comparou os preços recolhidos em lojas físicas do Funchal com os preços online de duas marcas (Pingo Doce e Continente) no território continental português.
Desculpem, mas esta comparação é desonesta. Qualquer pessoa sabe que as compras online no Continente muitas vezes não refletem a totalidade das dinâmicas promocionais de folheto físico de todas as regiões. Mas há algo ainda mais grave, ao comparar lojas físicas na Madeira com o site online, ignora-se que as plataformas online têm frequentemente taxas de preparação ou dinâmicas de preço distintas das lojas de proximidade ou de hipermercados físicos no continente (onde a concorrência feroz de insígnias como o Lidl, Aldi, Mercadona e Auchan esmaga os preços diariamente).
O relatório diz ter analisado 26 bens, mas excluiu 6 da comparação final (Grupo 4 da tabela: Massa Insular, Farinha Insular, Ovos Girão, Carne de Vaca e Açúcar) alegando "não haver correspondência direta".
Ao retirar produtos básicos de consumo diário regional altamente consumidos (como a carne de vaca para a espetada, os ovos locais e as massas/farinhas da própria ilha) e focar-se em apenas 20 produtos, o Observatório conseguiu criar um cabaz artificial.
Se analisarmos a tabela, as únicas coisas que puxam o preço do cabaz da Madeira para baixo são o Azeite (-25,9%), a Banana (-37,6%), o Lombo de Porco (-10,2%) e o Óleo Alimentar (-9,8%).
Comparar o preço da banana na Madeira (onde ela é produzida em massa e existe em excesso) com o preço da banana no Continente é demagogia estatística. É óbvio que o produto local, sem custos de transporte marítimo, tem de ser mais barato na origem. Usar a banana para "compensar" a média e dizer que o cabaz geral é mais barato é manipular a balança.
O próprio artigo confessa, de forma tímida, que os produtos frescos e essenciais são brutalmente mais caros na Madeira. Olhando para a tabela oficial da notícia:
- Tomate: +41,2% na Madeira (custa mais 0,80 € por quilo!).
- Batata: +38,0% na Madeira (custa mais 0,52 € por quilo!).
- Frango Inteiro: +16,1% na Madeira.
- Cebola: +5,7% na Madeira.
- Cenoura: +4,6% na Madeira.
- Queijo Flamengo: +4,5% na Madeira.
A batata, o tomate e o frango são a base da alimentação de qualquer família comum. Um aumento de quase 40% nestes produtos tem um impacto infinitamente superior no orçamento familiar do que uma descida pontual no azeite de uma marca específica ou no lombo de porco. O "cabaz" pode parecer mais barato no papel, mas na vida real das famílias, o prato diário está muitíssimo mais caro.
No Continente, o consumidor pode escolher entre Pingo Doce, Continente, Auchan, Intermarché, E.Leclerc, e os hard discounters alemães e espanhóis (Lidl, Aldi, Mercadona), que forçam uma guerra de preços constante.
Na Madeira, o mercado de grande distribuição é um duopólio prático. Sem a entrada de operadores de grande volume como a Mercadona ou o Lidl (cujas entradas na Região têm sido historicamente complexas e marcadas por entraves burocráticos e de licenciamento), não há incentivo para quebrar a concertação informal de preços.
A ARAE (Autoridade Regional das Atividades Económicas) foca-se em fiscalizações operacionais, mas raramente ataca o problema macroeconómico da falta de concorrência na cadeia de abastecimento.
No penúltimo parágrafo, o jornalista deixa escapar um dado oficial que deita por terra a ilusão de que a Madeira é mais barata. "Não obstante esta gama de produtos alimentares mais baratos do que a média nacional, a Madeira continua a apresentar a inflação mais alta do país, (...) o índice de preços no consumidor atingiu os 5% na Madeira..."
Se a inflação na Madeira é a mais alta de Portugal e o custo de vida está asfixiante (com destaque para a habitação e transportes), tentar convencer os cidadãos com um estudo de que "o cabaz alimentar é 3,8% mais barato" é uma tentativa gritante de cosmética política. O próprio Observatório de Preços foi criado há apenas quatro meses pelo Secretário Regional de Economia, ou seja, é um órgão governamental com um propósito claro: produzir dados que suavizem a contestação social sobre o custo de vida.
- Se a alimentação é mais barata na Madeira, por que razão a Região regista sistematicamente a taxa de inflação mais alta do país?
- Por que razão o estudo compara lojas físicas reais no Funchal com "preços online" do Continente, ignorando as promoções físicas e a concorrência de cadeias como o Lidl e a Mercadona que nem sequer existem na Madeira?
- De que serve a banana e o azeite estarem temporariamente mais baratos se a batata (+38%), o tomate (+41%) e o frango (+16%), a base da mesa de qualquer família, são substancialmente mais caros na ilha?
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