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A sintonizar estações...

O paraíso afunda-se em m****

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  • https://www.dnoticias.pt/2026/7/14/498960-qualidade-das-aguas-costeiras-da-madeira-atestada-mas-monitorizacao-e-essencial/

A

 Madeira é, oficialmente, um paraíso. Não é nós que dizemos, é o que está em todos os cartazes, em todos os voos, em todas as campanhas de marketing pagas com o dinheiro dos madeirenses. E quem somos nós para discordar?

Temos montanhas. Temos flores. Temos o Ronaldo, ou pelo menos a estátua.

E temos 12 milhões de turistas por ano.

Doze. Milhões. Numa ilha com 240 mil habitantes. Façam as contas: por cada madeirense, entram 50 visitantes. Cinquenta. É como se a tua casa recebesse 50 convidados por dia — e tu é que ficavas a lavar a loiça.

Mas não te preocupes. O teu presidente tem um plano.

Mais prédios.

Sim. A solução para uma ilha que já não aguenta mais gente é construir mais prédios. Em altura. Para caber mais gente. É o tipo de lógica que só funciona se nunca tiveres olhado para um mapa, ou para o mar.

Não é uma piada. É literalmente a resposta de quem governa esta ilha há décadas: construir mais, em altura, para caber ainda mais gente. Porque quando um barco está a afundar, a solução óbvia é meter mais passageiros.

A ilha tem cinco ETAREs, cinco estações de tratamento de águas residuais. Cinco. Nenhuma funciona como deveria (* com tratamento primário). O resultado é simples, democrático e cheira mal: os dejetos de 240 mil habitantes mais 12 milhões de turistas vão diretos para o mar. Para o mesmo mar que está em todos os cartazes. Para o mesmo mar que vendemos ao mundo inteiro como paraíso azul e cristalino.

Cristalino. É uma palavra corajosa.

Se és turista e leste até aqui: não entres no mar sem primeiro consultares a cor do dia. Se és madeirense e leste até aqui: já sabias. E calaste-te. Nós calamo-nos todos. É o que fazemos há 50 anos.

Mas voltemos ao presidente, que não descansa.

Enquanto o mar apodrece, enquanto as ETAREs dormem, enquanto as rendas subiram 7,3% só em 2025, a maior subida do país inteiro, parabéns a nós, enquanto famílias madeirenses fazem contas ao fim do mês com a angústia de quem sabe que o próximo contrato pode ser o último, o presidente da Madeira teve uma declaração histórica:

Quem não paga a renda deve ser despejado no dia seguinte.

Não é citação fora de contexto. É política. É visão. É o mesmo homem que promete construir mais prédios numa ilha onde os madeirenses já não conseguem pagar os que existem — porque os prédios não são para eles. Nunca foram.

O modelo é simples e está à vista de toda a gente que não prefira não ver. Entra o turista. Sobe a renda. Sai o madeirense. Entra mais um apartamento turístico. Repete.

Entretanto, o mar continua sujo. As ETAREs continuam paradas. Os prédios continuam a crescer. E o presidente continua a governar.

A isto chama-se paraíso. Nós chamamos-lhe casa. E estamos fartos.

Escrito por um madeirense. Anónimo. Por razões que qualquer madeirense entende.


* Tratamento primário numa Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR): consiste num processo essencialmente físico que visa remover os poluentes mais grosseiros e a matéria suspensa por ação da gravidade. Depois de passar por uma fase prévia de gradagem e desarenamento (onde se retiram sólidos grandes e areias), a água residual entra em decantadores primários, onde permanece em repouso relativo. Isto permite que as partículas orgânicas e inorgânicas mais densas sedimentem no fundo sob a forma de lama primária, enquanto as gorduras e óleos, menos densos, flutuam à superfície e são recolhidos por raspadores. Este processo consegue reduzir significativamente a carência bioquímica de oxigénio (CBO) e os sólidos suspensos totais, preparando o efluente para o tratamento secundário biológico.

NÃO TEMOS NA MADEIRA: depois do tratamento primário, o ciclo de despoluição numa ETAR é tipicamente concluído por mais três fases sequenciais:

  • Tratamento Secundário (Biológico): utiliza microrganismos (bactérias) que digerem a matéria orgânica dissolvida que resistiu à decantação, transformando-a em flocos biológicos que depois sedimentam nos decantadores secundários.
  • Tratamento Terciário (Avançado): aplica técnicas de filtração e desinfeção (como radiação UV ou cloro) para eliminar nutrientes em excesso (azoto e fósforo), vírus e bactérias patogénicas, garantindo que a água pode ser rejeitada na natureza ou reutilizada com segurança.
  • Tratamento de Lamas (Fase de Sólidos): concentra, digere e desidrata todas as lamas recolhidas nas fases anteriores, transformando este resíduo num composto estabilizado que pode ser valorizado para a agricultura ou encaminhado para o aterro.

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