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Na Madeira, o Governo Regional e o setor público (direto ou indireto) continuam a ser os maiores motores da economia e do emprego. Muitas famílias dependem direta ou indiretamente de empregos públicos, de contratos com empresas que prestam serviços ao Governo, ou de apoios sociais. Esta forte dependência económica cria um clima de receio invisível, manifestar-se ou votar contra o status quo é frequentemente percebido como um risco para a estabilidade financeira familiar. Perante a precariedade e os baixos salários, parte do eleitorado prefere a estabilidade do que já conhece (mesmo que imperfeita ou sob suspeita) à incerteza da mudança política.
A tolerância perante suspeitas de corrupção ou favorecimento de elites tem raízes num fenómeno de sociologia política muito comum em regimes de longa permanência de um só partido. Durante décadas, o discurso regionalista incutiu a ideia de que o desenvolvimento da Madeira (as estradas, as escolas, os hospitais) se deveu exclusivamente à audácia dos seus líderes contra o "centralismo de Lisboa". Na cabeça de muitos eleitores, as suspeitas de corrupção ou as mordomias das elites são vistas como um "efeito secundário" tolerável face ao progresso material visível.
Ao darem a vitória eleitoral a quem enfrenta graves acusações na justiça, muitos eleitores sentem que estão a defender a própria autonomia regional contra o que consideram ser "ataques externos" do sistema judicial nacional. O voto passa a ser uma declaração de lealdade identitária e não uma avaliação ética da governação.
Investimentos como este novo campo de golfe de 10 milhões de euros no Porto Santo são politicamente camuflados sob a bandeira da "atração de turismo de alto rendimento". A narrativa oficial defende que estes projetos criam emprego, valorizam o imobiliário e colocam a Região no mapa das elites internacionais.
O que esta narrativa omite é o desequilíbrio na distribuição dessa riqueza, enquanto o erário público financia as infraestruturas de luxo, a maioria dos trabalhadores desse mesmo setor turístico continua a receber salários mínimos ou muito próximos disso, enfrentando uma crise habitacional sem precedentes devido à pressão turística e imobiliária.
A Madeira parece ter as suas próprias alterações climáticas, ninguém liga até tudo acabar.
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