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Eles sempre andaram por aí

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ntes do dia 25 de abril de 1974, durante o regime de Salazar e, mais tarde, de Marcelo Caetano, havia uma parte da sociedade portuguesa que não só aceitava como apoiava ativamente o Estado Novo. Uns por convicção ideológica, outros por conveniência, medo ou benefício direto. Defendiam a ordem, a autoridade, a moral “tradicional”, a pátria una e indivisível (Deus, Pátria, Família) mesmo que isso implicasse censura, repressão, guerra colonial e perseguição política.

Com a Revolução dos Cravos, muitos desses apoiantes (não) desapareceram. Não foram julgados, não foram exilados (mesmo que alguns, de consciência pesada, tivessem feito um retiro temporário no Brasil), não se evaporaram na madrugada libertadora. Adaptaram-se. Alguns mudaram o discurso, vestiram a linguagem da democracia recém-instalada, integraram partidos do arco governativo, ocuparam lugares na administração pública, nas empresas, nos meios de comunicação. Tornaram-se, pelo menos na aparência, democratas.

Mas as ideias, essas, raramente se dissipam com a mudança de regime. Recuam, reorganizam-se, aguardam o momento propício.

Durante décadas, certos preconceitos foram sendo sussurrados em privado: a desconfiança em relação a estrangeiros, a nostalgia de uma autoridade forte, a crítica à “excessiva liberdade”, o incómodo perante avanços nos direitos das mulheres e das minorias. A xenofobia reaparecia disfarçada de “preocupação com a segurança”. O conservadorismo rígido surgia como “defesa dos valores da família”. O machismo persistia, agora com verniz de opinião pessoal ou tradição cultural.

Nos últimos anos, esses discursos ganharam “rosto” e nova visibilidade através do Chega e do seu líder, André Ventura. Na retórica anti-imigração, na generalização sobre comunidades específicas, no ataque sistemático a jornalistas, académicos e ativistas, na exaltação de uma autoridade musculada e na constante polarização do debate público ressurgem elementos de um passado que muitos julgavam encerrado ou, pelo menos, limitado a uma minoria eternamente insatisfeita com a liberdade dos outros.

Não se trata de afirmar que todos os apoiantes atuais de forças de extrema-direita viveram ou apoiaram o antigo regime; isso seria simplista e inviável, uma vez que os mais acérrimos defensores de uma realidade que não se pensava voltar a ser possível ou ainda não eram nascidos ou eram muito jovens na data da Revolução. Trata-se, sim, de reconhecer continuidades culturais e ideológicas. Certos padrões discursivos, a divisão entre “bons portugueses” e “inimigos internos”, a idealização de um passado mítico, a promessa de ordem pela força, são traços clássicos dos movimentos autoritários que, muito por culpa da, já não pouca, mas deficiente, instrução (que a nova sociedade não teve capacidade de mudar) e uma flagrante falta de literacia democrática entre muitos “diplomados”, conseguiram medrar entre vários estratos da população.

O que mudou foi o contexto. Hoje, essas ideias circulam nas redes sociais, em programas de comentário televisivo, em campanhas eleitorais cuidadosamente coreografadas. Apresentam-se como anti-sistema, apesar de muitas vezes serem protagonizadas por figuras que sempre estiveram próximas do poder ou das suas estruturas.

“Eles sempre andaram por aí” não é uma acusação individual, mas um alerta coletivo. A democracia não elimina automaticamente as tendências autoritárias; apenas cria mecanismos para as conter. Quando a frustração social aumenta, quando a desigualdade persiste e quando a confiança nas instituições diminui, discursos simplistas e bodes expiatórios encontram terreno fértil.

A história mostra que a defesa da liberdade exige memória e vigilância. As ideias que sustentaram regimes autoritários não desaparecem com uma revolução; transformam-se, adaptam-se e procuram novas formas de expressão. Reconhecer esses ecos não é viver preso ao passado, é compreender que a democracia é um processo contínuo, nunca garantido, que depende da participação crítica e informada de todos.

Fernando Letra

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