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A sintonizar estações...

O fim do Funchal dos cidadãos

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Q

uase todos os dias somos surpreendidos por mais um empreendimento de luxo, por mais alojamento local, um hotel de cidade, quase nunca de habitação para madeirenses. As imagens não mentem e as notícias confirmam, o Funchal está a ser retalhado em frações de luxo ou rendosas para alojamento de curta duração. Quando vemos um edifício modernista de Chorão Ramalho, um marco da nossa história urbana, ser convertido em apartamentos a começar nos 970 mil euros, a mensagem é clara, o centro da cidade já não é para os funchalenses. Este é um episódio, o de hoje, houve para trás e haverá para a frente, porque se sabe nos bastidores. O Funchal será reluzente, mas sem madeirenses, sem cheiros da infância, sem alma, simplesmente reluzente.

Estamos a assistir a um processo acelerado de "resortificação" da nossa cidade. O Funchal, outrora uma cidade viva, com vizinhos que se conheciam e comércio de proximidade, está a transformar-se num grande átrio de hotel a céu aberto. Isto deve estar certo, porque ninguém se importa ou se manifesta. Este fenómeno é alimentado por uma aliança perigosa entre três fatores um Triângulo da Destruição.

Não são apenas os fundos estrangeiros, são também os capitais regionais que, seduzidos pelo lucro rápido do Alojamento Local (AL) e do imobiliário de luxo, preferem expulsar os seus para dar lugar a "nómadas" e investidores de passagem, é uma ganância transversal que caberia aos eleitos na câmara e no governo saberem moderar, mas como se são feitos da mesma massa.

A cidade em maquete é tratada como um tabuleiro de jogo. Onde havia memória, projeta-se betão fotorrealista. Planeia-se para a estética do folheto de vendas, não para a vivência de quem precisa de escola, farmácia, comércio local e uma renda acessível. A essência da cidade será dispersa pelos bairros sociais disfuncionais. O Funchal será reluzente mas sem alma, se calhar uma cidade reluzente cheia de sem-abrigo. Um resort tem hóspedes, mas não tem cidadãos. Se continuarmos a permitir que cada esquina histórica se torne num empreendimento "exclusivo" com concierge e piscina privada, o Funchal perderá a única coisa que o torna único, a sua identidade.

Quando o preço de entrada num prédio reabilitado é de quase um milhão de euros, estamos a dizer às novas gerações de madeirenses que o seu futuro é na periferia da periferia, ou fora da ilha.

A Madeira está a ser devorada pela própria beleza, servida num prato de prata a quem paga mais, enquanto quem a construiu é convidado a sair por não conseguir pagar a conta. Não é progresso, é uma liquidação total. Assim se compreende, mais uma vez, o porquê do inverno demográfico acelerar para a nossa própria extinção. Quem gere esta extinção são os eleitos dos madeirenses, que insistem.

Entretanto, vemos todo um leque de empresários estrangeiros a aproveitar a desregulação, da mesma maneira como os religiosos podem estacionar em cima do Largo do Município. Rent-a-cars, Alojamento Local, se os locais não se importam é excelente para se ganhar dinheiro, destruir o destino e ir embora.

Parabéns a todos os madeirenses que votam no seu suicídio ou emigração...

Quem sou eu para criticar isto se os funchalenses e madeirenses dão mais valor aos memes, ao entretenimento e à poncha para legitimar o seu desterro? Quando começarem a chorar, eu começarei a rir, este processo é gradual e ninguém liga.

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