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A democracia do laranja!

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a Madeira, há uma elegância trágica na forma como certa gente conseguiu transformar a própria asfixia em bandeira, a dependência em virtude e o aplauso em instinto de sobrevivência. Pagam-se impostos, engolem-se salários de miséria, toleram-se favores de família e, depois, ainda se ergue o braço em saudação ao mesmo sistema que os mantém de joelhos, como se a exploração fosse um privilégio e a servidão tivesse selo de qualidade regional.

É a velha magia do regime, essa alquimia moral em que o cidadão não quer sair da penúria, quer apenas decorá-la com laranja, gravata e uma fotografia no comício, convencido de que o tacho alheio é sinal de estabilidade e a sua própria pobreza um detalhe patriótico, quase folclórico, digno de aplauso e procissão. 

E como não faltam catequistas da obediência, ainda se confunde disciplina com dignidade, lealdade com inteligência e medo com maturidade cívica, como se o futuro da ilha tivesse de ser sempre um corredor estreito entre a conta vazia e a urna obediente.

O resultado é um teatro de submissão altamente funcional, quem não tem carro acha virtuoso que ninguém tenha; quem não viaja declara guerra aos turistas; quem não recebe apoios quer cortar os apoios de todos; quem vive de salário curto defende, com fervor missionário, a reforma laboral que o encurta ainda mais; quem se sente pequeno protege os grandes, e quem deveria exigir dignidade prefere a superstição confortável de obedecer ao patrão político de estimação, como se a alternância de poder fosse uma doença e a crítica um crime de lesa-tranquilidade.

O problema não é apenas económico, é mental e cívico. quando a miséria passa a ser identidade, a ignorância ganha estatuto de doutrina e a vassalagem veste-se de consciência, já não estamos perante cidadãos a escolherem mal — estamos perante uma pedagogia da humilhação que pede ao contribuinte que financie o luxo, ao explorado que aplauda o chicote e ao povo que chame “estabilidade” ao costume de ser apertado sem direito a queixa.

Na prática, o que se vende como autonomia é, demasiadas vezes, uma autonomia de fachada: muda a retórica, mantém-se o trono; muda o cartaz, conserva-se a clientela; muda a encenação, repete-se o mesmo milagre: os mesmos de sempre sobem, os mesmos de sempre pagam, e ainda há quem agradeça por ter sido escolhido para continuar pobre com convicção.

Afinal, a maior obra pública não é uma estrada nem uma rotunda; é esta fábrica de resignação, onde a indignação é tratada como mau feitio e a dignidade como erro de contabilidade.

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