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Ao analisar a história política da Região nos últimos 50 anos é mergulhar num caso de estudo singular de hegemonia democrática, onde o PSD governa ininterruptamente desde as primeiras eleições regionais em 1976. Para compreender por que razão a oposição tem falhado sistematicamente em formar governo, é necessário olhar para além dos números eleitorais e dissecar a estrutura social, económica e psicológica da ilha.
A oposição nunca faz isto para criar um antídoto?
O maior trunfo histórico do PSD/Madeira foi a capacidade de fundir a identidade do partido com a própria sobrevivência da Autonomia. Durante décadas, Alberto João Jardim personificou a resistência contra o "centralismo de Lisboa". Qualquer ataque da oposição ao governo regional era habilmente transformado num ataque à Madeira. A oposição nunca soube quebrar este enguiço?
Um pormenor, a oposição não conseguiu ganhar Regionais com um manto de acusações de todo tipo ao candidato, isto é falta de capacidade de argumentar.
O PSD capitalizou o salto de desenvolvimento infraestrutural (túneis, estradas, portos) financiado por fundos europeus. Para muitos eleitores, a oposição representava o risco de interromper este fluxo de progresso. O PSD transmitiu que era o único que ponha a Madeira em marcha.
Com dinheiro, a oposição se fosse poder era manca?
A economia da Madeira é frequentemente descrita como um sistema onde o setor público e um restrito grupo de interesses privados (muitas vezes referidos como "os grupos" ou oligarcas) se retroalimentam. Com uma percentagem elevadíssima da população dependente direta ou indiretamente do Orçamento Regional (funcionários públicos, empresas de construção, serviços concessionados), o voto torna-se um ato de autopreservação económica.
O domínio de setores chave (energia, transportes, cimento, distribuição) por poucos grupos familiares cria uma barreira de entrada para novos atores económicos que poderiam apoiar visões políticas alternativas. A oposição raramente tem os recursos financeiros ou o apoio empresarial para competir em igualdade de circunstâncias. E agora, "descriminalizam" o financiamento partidário...
Embora vivamos em democracia, na Madeira desenvolveu-se o que alguns sociólogos chamam de "medo cívico". O medo de perder o emprego, de ver um subsídio cortado ou de uma empresa ser excluída de concursos públicos criou um clima de silenciamento. Quem se expõe pela oposição muitas vezes paga um preço profissional.
Mais do que a compra direta (o "saco de cimento", a viagem ou a "refeição"), o clientelismo funciona através da promessa de favores, uma consulta médica antecipada, um emprego para um filho ou uma legalização de uma obra. Este sistema de pequenos favores atomiza a oposição e fideliza o eleitor individualmente. Por vezes, as "concessões" não é mais do que acelerar expediente, mas o favor fica por cobrar.
A oposição também tem responsabilidade no seu próprio fracasso por não conseguir romper este ciclo.
À esquerda e ao centro, a oposição raramente conseguiu apresentar uma frente unida. A dispersão de votos entre PS, JPP, CDS (antes da coligação), BE e PCP facilitou as maiorias absolutas do PSD. Mas também, vá lá saber-se se ia dar um "São Vicente" do Chega, da maneira como está.
Durante anos, a oposição focou-se na crítica a Jardim, mas falhou em apresentar um modelo económico alternativo que não passasse pela dependência do erário público. O eleitor, perante a dúvida, escolhe o "mal conhecido".
Enquanto o Funchal é politicamente mais volátil, nas zonas rurais permanecem bastiões conservadores, onde a rede social do partido no poder é quase impossível de penetrar. Com todo tipo de artimanhas, como Casas do Povo a substituir Juntas da "concorrência"
Com a saída de Jardim e a ascensão de Miguel Albuquerque, o regime perdeu a sua face mais ruidosa, mas a estrutura subjacente manteve-se. Contudo, os resultados recentes (como a perda da maioria absoluta e a necessidade de coligações com o CDS e o apoio do PAN/Chega em diferentes momentos) mostram que existe uma "teia" que desagravam a erosão. Também há vendidos na oposição.
O fracasso da oposição na Madeira não se deve apenas à falta de boas ideias, mas à luta contra um sistema totalizante. O PSD não é apenas um partido político na ilha, é uma estrutura de emprego, um distribuidor de recursos e um escudo identitário. Para a oposição vencer, terá de convencer o eleitor de que existe vida, e sobrevivência económica, fora da rede de influência do atual regime.
São 50 anos sem saber comunicar e continuam nos palcos do PSD. Em nenhum momento a oposição soube fazer xeque-mate... e houve oportunidades.
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