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Digitalização no WC

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alo-vos como técnico de informática — uma espécie em vias de extinção na DRI, substituída progressivamente por PowerPoints, slogans e uma fé quase religiosa no PRR. Ainda sou do tempo em que “infraestrutura” significava algo que funcionava. Hoje, parece ser apenas uma palavra cara usada para justificar investimentos ainda mais caros.

Durante anos, ouvimos falar de modernização, cloud, interoperabilidade e desmaterialização. Na prática, conseguimos um feito notável: desmaterializámos a lógica, a coordenação e, em muitos casos, o bom senso.

Na DRI, a digitalização foi um sucesso tão absoluto que o papel desapareceu por completo. Todo. Não apenas o burocrático — esse ninguém lamenta — mas também o essencial. Sim, esse mesmo. O detalhe incómodo que nunca coube em estratégia nenhuma, nem em caderno de encargos, nem em adjudicação milionária. Afinal, dignidade operacional não é rubrica orçamental.

É, no mínimo, impressionante assistir a este modelo de gestão: milhões investidos em equipamentos, plataformas e soluções que raramente comunicam entre si, enquanto o funcionamento básico dos serviços entra em rutura com uma consistência quase admirável. Há uma coerência, pelo menos — tudo falha de forma alinhada.

Quanto à estratégia… bem, se existir, é de uma subtileza brilhante: ninguém a consegue identificar. O PRR, que prometia transformação estrutural, foi convertido num catálogo de compras. Compra-se muito, implementa-se pouco, integra-se menos ainda. E depois admiram-se com a ausência de resultados. Talvez porque, no meio de tanta aquisição, se tenha esquecido o pequeno detalhe de pensar.

Mas nada disto surpreende quando se olha para a forma como as pessoas são tratadas.

Os que cá estão são sistematicamente ignorados até ao limite da exaustão. Os que saem — muitos após anos de trabalho sério e missão cumprida — partem em silêncio, sem reconhecimento, sem memória, sem legado. Como se nunca tivessem sido necessários. Como se fossem descartáveis desde o início.

“Santos da casa não fazem milagres”, diz-se. Na DRI, nem deixam tentar. E quando se recorre a soluções externas, confirma-se o óbvio: quem vem de fora não traz inovação — traz apresentações mais bonitas para justificar as mesmas decisões vazias.

O resultado é um paradoxo quase artístico: uma organização equipada com tecnologia de última geração, mas incapaz de garantir o mínimo funcionamento básico. Uma entidade que fala de futuro enquanto acumula sinais evidentes de regressão.

E sim, regressão. Porque quando se perde capacidade técnica, memória institucional e respeito pelas pessoas, não há transformação possível — há apenas deterioração com financiamento.

No meio deste cenário, talvez faça sentido revisitar modelos mais simples. Júlio César, por exemplo, não tinha PRR, nem cloud, nem interoperabilidade. Mas tinha estratégia, liderança e resultados. Aqui temos o inverso: ferramentas sem direção, investimento sem critério e uma gestão que confunde movimento com progresso.

E assim chegamos ao verdadeiro símbolo desta “transição digital”: a casa de banho sem papel. Um detalhe menor, dirão alguns. Mas talvez seja o retrato mais honesto de tudo isto — uma organização onde o essencial falha, enquanto o supérfluo prospera.

No fim, resta apenas uma dúvida, cada vez menos irónica e cada vez mais factual: isto não é modernização.

É decadência com orçamento.

“Quando um porco toma o castelo, o porco não vira rei, é o castelo que vira um chiqueiro.”

AVÉ CÉSAR.... To be continue.

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