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É uma entrevista com quase 40 minutos, profunda e humanista entre uma historiadora e o Padre da paróquia de São José, na nossa cidade, Funchal. É uma análise crítica que destaca o valor ético e social
"Deus não é uma arma do colonialismo"
O diálogo percorre a crise civilizacional atual, o papel da religião na política e a memória histórica da Madeira.
O Padre José Luís expressa uma "tristeza profunda" com a regressão humanitária, onde as armas substituíram os valores [01:22]. Critica severamente o uso do nome de Deus para justificar guerras e opressão, afirmando que "se Deus não é pelo bem, não existe", classificando como "diabólico" o uso da fé para destruir o próximo [06:51].
Não fugindo daquilo que se conhece, o Pde Rodrigues faz uma distinção crucial, o catolicismo muitas vezes foca-se no ritual e na "beatice" superficial, enquanto o verdadeiro cristianismo é a prática radical do amor e da compaixão [08:19]. Para ele, quem não vive o amor ao próximo é, na prática, "ateu", independentemente do que proclama [09:15].
Não se pode deixar de pensar na nossa terra.
Na entrevista, aborda a necessidade de uma "política humana contra a política da barbárie" [05:17]. Discute a Teoria da Libertação e a figura do Padre Martins em Machico, que descreve como um líder que ensinou o povo a "pensar em vez de apenas rezar", promovendo a dignidade e a consciência de classe [28:09].
Mais claramente, critica o sistema de "servidão voluntária" e as redes de dependência na Madeira, onde o voto é muitas vezes dado por gratidão ou medo, e não por consciência democrática [32:39]. Doloroso.
A entrevista termina com um apelo ao pensamento crítico. O padre afirma que a sua própria fé é baseada em perguntas e lamenta que a sociedade esteja a abdicar do dom de questionar [37:43].
Este é o meu resumo sobre o que vi, mas agora quero comentar.
Ao afirmar que a substância de Deus é a liberdade e o bem, o padre resgata a espiritualidade das mãos de fundamentalismos políticos. Agora é costume a política usar a fé e a Igreja. O Pde Rodrigues valida a ética acima da pertença institucional, reconhecendo que um ateu que ama a humanidade é mais fiel ao princípio divino do que um crente que promove o ódio. Doloroso. Só me lembro da quantidade de pecadores que pecam porque no fim de semana batem com a mão no peito e nunca mudam. Senti a primazia do humanismo sobre o dogma, curiosamente, talvez seja um ensinamento aos partidos e instituições que se cristalizaram do dogma.
É raro e louvável ver um clérigo analisar com tamanha lucidez as estruturas de poder. A sua denúncia do "paternalismo" e da "gratidão por direitos" (referindo-se ao contexto da Madeira) é um serviço à literacia democrática. Esperemos que o entendam em profundidade, em vez de consumir uma soma de segundo de satisfação seguidos que perfazem horas de entretenimento sem avanço civilizacional através do constante scroll no telemóvel ou da realidade regional com o "circo". O Pde Rodrigues recorda-nos que a democracia exige "costas erguidas" e cidadãos que se vejam como mandantes, não como súbditos. Aqui coloco de novo um doloroso.
Ao elogiar a herança do Padre Martins e da Teologia da Libertação, José Luís defende uma Igreja que não é anestésica, mas sim um motor de consciência. A sua visão do "trabalhador como centro" e a defesa de um trabalho digno contra a "escravidão moderna" colocam o Evangelho em diálogo direto com as dores reais do mundo atual. Sinto que o Pde Rodrigues procura a "salvação" da igreja, uma religião como ferramenta de emancipação, e em contraponto, uma crítica a Igreja servil do poder regional.
Num tempo de respostas rápidas e polarizadas, a sua defesa da "fé baseada em perguntas" é um ato de resistência intelectual. O Pde Rodrigues propõe uma espiritualidade que não fecha os olhos à ciência ou à política, mas que utiliza a inteligência como a forma mais alta de honrar a existência. A crítica, o contraditório é necessário, depois cada um retira as suas ilações.
Para mim, o Padre José Luís Rodrigues revela-se como um "intelectual nacional-popular", cujo discurso não procura converter, mas sim elevar a dignidade humana e incentivar a liberdade de pensamento.
Achei que pelo serviço público que o Madeira Opina faz, deveria constar como publicação. Agradeço-a se for satisfeita.
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