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Mas alguém decidiu que era mais conveniente substituir o canário por um bibelô numa gaiola dourada, algo bonito, incapaz de incomodar. Melhor isso do que lidar com um ser vivo, sensível às mudanças do ar.
Hoje, grande parte do jornalismo está capturada. Capturada por interesses económicos, por oligarcas que compram redações como quem compra uma camisa, por políticos que exigem narrativas domesticadas para não perturbar os seus “negócios”. O resultado é um simulacro de jornalismo produzindo notícias sem risco, investigações sem consequência, indignação fabricada para consumo rápido.
O canário não morreu de causas naturais. Foi morto pela ganância dos “donos disto tudo”, quem prefere controlar o ar a limpá-lo. Criou-se um ambiente onde já não se tolera escrutínio nem confronto. E, no seu lugar, ficou uma imitação barata, decorativa, inofensiva, perfeitamente inútil.
Entretanto, a mina continua a encher-se de gás. Corrupção normalizada, desigualdade crescente, decisões tomadas em circuitos fechados e vendidas como inevitáveis. E sem aviso, sem alarme, sem jornalismo que incomode de verdade, a democracia asfixia lentamente, em silêncio, até deixar de respirar.
O mais perigoso não é o ar tóxico.
É habituarmo-nos a ele.
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