De Albuquerque a Jorge Carvalho
D
Durante muitos anos, Miguel Albuquerque foi visto com calçado condizente com a função que desempenhava. Sapatos elegantes, bem tratados, devidamente engraxados e compatíveis com a imagem de quem representa uma instituição pública. Havia uma certa solenidade na apresentação, um cuidado que transmitia dignidade e sentido de Estado.
Mas o tempo passa e as modas mudam. Hoje, alguns observadores mais atentos notam uma preferência por modelos de biqueira excessivamente alongada, daqueles que parecem chegar ao destino alguns segundos antes do seu proprietário. Há quem diga, em tom de brincadeira, que os sapatos entram na sala e só depois aparece o político. São opções estéticas perfeitamente legítimas, mas que inevitavelmente suscitam comentários bem-humorados nos cafés e nas redes sociais.
Já o caso de Jorge Carvalho merece um estudo científico próprio. Em cerca de um ano de mandato, muitos cidadãos juram que os sapatos castanhos que usa são sempre exatamente os mesmos. Há quem suspeite que já adquiriram estatuto patrimonial, merecendo classificação e proteção oficial.
Os resistentes sapatos castanhos, já com sinais evidentes de quilometragem acumulada, parecem ter acompanhado reuniões, inaugurações, cerimónias, visitas e talvez até algumas batalhas políticas. A sua longevidade é tal que alguns garantem reconhecer Jorge Carvalho ao longe não pelo rosto, mas pelo perfil do calçado.
Naturalmente, a persistência no uso do mesmo par levanta questões filosóficas profundas. Até onde pode ir a fidelidade entre um homem e os seus sapatos? Será uma demonstração de sustentabilidade ambiental? Um protesto silencioso contra o consumismo? Ou simplesmente uma amizade inquebrável entre sola e proprietário?
Os mais maliciosos recordam que o uso intensivo do mesmo par durante longos períodos pode criar desafios que a diplomacia ainda não resolveu: desgaste, vincos, fadiga do material e, como diria qualquer fabricante de desodorizantes, uma relação cada vez mais intensa entre couro e atmosfera.
No final, talvez os nossos avós tivessem razão. Pelos sapatos vê-se muito de uma pessoa. Uns preferem impressionar com modelos arrojados que desafiam as leis da aerodinâmica. Outros escolhem a lealdade absoluta a um único par, até que a sola os separe.
E assim segue a vida política madeirense: uns a caminhar com sapatos que chamam a atenção pela frente, outros com sapatos que chamam a atenção pelo tempo que já lá vão. Afinal, como diria a velha tradição, os sapatos contam histórias. Alguns contam apenas uma. Outros contam demasiadas.
Envie texto ou siga-nos nas redes sociais:


Regras e Diretrizes da Comunidade
1: Não publique e-mail ou qualquer tipo de informação pessoal.
2: Não publique links do seu próprio blog/site.
3: Não faça spam, respeite.
4: Para Ajuda e Suporte, utilize o formulário de Contato.