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O artigo de Jardim

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J

ardim utiliza o pretexto do lançamento do seu novo romance ("Independência?...") para fazer aquilo que marcou toda a sua carreira pública, uma reflexão ideológica, uma defesa do seu legado e um ataque cerrado ao centralismo e ao estado da sociedade atual.

O cerne do artigo reside na desmistificação do título do livro. Jardim apressa-se a esclarecer que não defende o separatismo. O seu argumento contra a independência da Madeira assenta num pragmatismo geográfico e económico muito vincado. Aponta a falta de recursos naturais e a excessiva dependência de importações (será o único lúcido no PSD), critica abertamente as "políticas de turismo erradas" que geram excesso demográfico (caro Jardim, já deveria estar a escrever no Madeira Opina). Alerta que uma Madeira independente seria presa fácil para os "abusos de uma grande potência" (amigo, isso é só uma técnica que tu conheces de meter medo, do outro lado deveriam dizer uma vez "já, onde se assina para serem independentes?). Jardim reafirma que, apesar de seis séculos de insularidade, a identidade madeirense é "cultural e civilizacionalmente" portuguesa, classificando a independência como uma "auto-agressão".

A seção mais dura do texto é dirigida à sociologia atual. O autor recupera uma matriz de pensamento assente no Personalismo Cristão para atacar o que considera ser a decadência da sociedade contemporânea. Ataca a Classe Média, acusando-a de se deixar corromper por uma "cultura burguesa" marcada pelo relativismo, consumismo e exibicionismo. Eu diria que o pior é serem uns falsos que se vendem e se tornam moluscos, este é um grande problema.

Jardim denuncia um processo de "proletarização" da classe média provocado por poderes dominantes (públicos e privados), cujo objetivo seria anular a "massa cinzenta e crítica" para permitir que um "capitalismo pouco esclarecido" continue a explorar salários baixos (Jardim, de novo, já deveria estar a escrever no Madeira Opina, tantos textos com estes temas, mas todos os dias vêm páginas a metro com os promotores... e os vendidos).

Jardim lamenta a apatia popular, referindo que as pessoas vivem acomodadas no "tédio das rotinas" e alienadas pelas "propaganda" dos "mercenários de serviço". E o entretenimento, os jornais têm a grossa parte de tretas, não há notícias, parecem uma revista.

O estilo de Jardim mantém-se fiel ao registo que o consagrou, panfletário, acutilante, provocador e sem eufemismos. Existe uma ambiguidade interessante no texto. Ao mesmo tempo que rejeita categoricamente a independência política formal, Jardim utiliza uma retórica que alimenta o sentimento de diferenciação e de resistência insular contra os "poderes dominantes". O uso da sátira e do romance serve de escudo perfeito, permite-lhe colocar cenários radicais hipótese ("considerar alternativas") sem ter de assumir o custo político das mesmas na realidade concreta.

O texto é um manifesto clássico "jardinista". Disfarçado de crítica literária a si próprio, é, na verdade, um grito de alerta contra a perda de espírito crítico da sociedade contemporânea e um lembrete de que, para Alberto João Jardim, a autonomia da Madeira espiritual e cultural nunca deve ser domesticada, mesmo que a independência política seja uma utopia perigosa.

P.S.: se tiver disponível no momento da publicação insiram um link para o artigo de opinião.

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