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Na ilha da Madeira o dinheiro público parece ter uma vocação muito própria, em vez de servir a escola, a saúde, as estradas, a habitação, ganha asas, faz curvas apertadas e aparece de repente onde menos se espera. Nos carros de rally. Na ilha da Madeira, há quem fale de gestão, transparência e responsabilidade com a mesma convicção com que se fala de bom tempo em janeiro, como se a repetição de palavras bastasse para apagar o cheiro a favorzinhos, compadrios e contas mal explicadas.
O problema é a lata. A lata de tratar recursos públicos como se fossem troféus de vitrina, e a lata ainda maior de fingir que tudo isto é normal, quando no fundo é apenas o velho carnaval da impunidade com gasolina. É preciso ter vergonha na cara, ainda sendo arguido com suspeita de desviar dinheiros públicos continuar a fazer rally.
Se alguém quiser aprender a arte de viver à sombra do erário sem grande incómodo moral, na ilha da Madeira é onde essa escola funciona demasiado bem. Basta ter o discurso certo, a pose certa e a memória curta. Na ilha da Madeira a política confunde -se com espetáculo e fazer vídeos como se fosse um adolescente a dizer nada, (que é o caso do presidente desta ilha) e o interesse público com promoção privada, o resultado é sempre o mesmo, uns poucos a desfilar, muitos a pagar, e quase ninguém a prestar contas. Onde andas tu policia judiciária?
Vergonha na cara e respeito pelo dinheiro que sai dos bolsos de todos.
Os mesmos que deviam estar a responder por tudo continuam a aparecer com pose, com sorriso e com a confiança intacta de quem sabe que, por aqui, a responsabilidade política costuma ser só decoração. É preciso uma lata monumental para brincar aos grandes eventos, aos grandes feitos e aos grandes homens enquanto o povo paga a conta, fecha os olhos e é convidado a fingir que isto é normal.
Se há um manual para viver à custa do erário sem grande perturbação moral, a Madeira já o deve ter estudado com aproveitamento. O Guilherme Silva que o diga. É preciso muita habilidade para transformar o abuso em rotina. E no fim ainda querem palco. Querem que o povo bata palmas enquanto lhes estendem mais uma fatura.
O problema não é só a corrupção. O problema é a arrogância nojenta com que ela se exibe. A corrupção pavoneia-se.
O mais ofensivo nem é o abuso em si. É a forma como certos protagonistas agem como se fossem intocáveis, como se a memória das pessoas fosse curta o suficiente para engolir qualquer história bem ensaiada.
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