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Espero ter o livro o mais brevemente possível nas mãos, penso que mais do que críticas implicitas, o seu trabalho representa um legado de memória e de responsabilidade. Quem conhece a história do urbanismo sabe que as cidades que prosperam são aquelas que planeiam, que estabelecem regras claras e que protegem o interesse coletivo. Só de dizer isto já me arrepio porque nada disto se passa e muito menos o coletivo nativo desta terra beneficia, aliás, parecem esquecidos perante a ganância. O planeamento não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas há quem o entenda assim pela quantidade de vezes que o PDM é aletrado e suspenso, por várias artimanhas, a maioria delas justificando no interesse dos funchalenses, o que é uma falácia que encobre as reais intenções. O planeamento é precisamente o instrumento que impede a degradação da paisagem, a sobrecarga das infraestruturas e a perda da identidade urbana.
Recordo que este turismo desenfreado, a que chamam de massivo e alcunhado de coisas piores está a a provocar a gentrificação acelerada do Funchal que só vê AL's. Este momento vai nos sair caro, daqui por mais uns tempos reconheceremos, estamos a perder identidade e transmissão da alma do Funchal.
As palavras de Danilo Matos ganham ainda maior atualidade numa altura em que a Câmara Municipal do Funchal decidiu avançar para uma suspensão parcial do PDM, justificando-a com a necessidade de aumentar a oferta de habitação. Não se consegue construir mais sem alterar ou a encomenda surgirá de outra maneira, menos para os funchalenses?
Danilo Matos pertence a uma geração de técnicos que acreditava que as cidades se constroem com visão e não com improvisação. O livro, tenho a certeza, será um testemunho valioso da evolução urbanística do Funchal e um alerta para os riscos de se abdicar do planeamento em nome das urgências do momento. Num tempo em que se multiplicam os discursos sobre simplificação e exceção, continua a recordar-nos que o interesse público exige regras, coerência e memória. Independentemente das opções políticas de cada época, é de reconhecer a coragem de quem, com conhecimento técnico e independência intelectual, continua a afirmar que uma cidade sem planeamento deixa de ser uma comunidade organizada para se transformar num território sujeito às pressões e conveniências de cada momento. O Funchal deve muito a quem teve a coragem de dizer estas verdades, mesmo quando elas são incómodas. Temos tão pouca gente assim nos nossos dias.
Danilo Matos, para quem não tenha presente, recorda que o urbanismo não se faz para os próximos quatro anos, mas para as próximas gerações. E que suspender regras deve ser sempre uma exceção cuidadosamente ponderada, porque reconstruir uma cidade desordenada é infinitamente mais difícil do que preservar uma cidade planeada.
Aguardo pelo segundo livro, faço fé nisso.
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