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Quando o ódio se organiza.

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notícia é simples e os factos são teimosos. Na operação “Irmandade”, a Polícia Judiciária deteve 37 pessoas ligadas ao grupo 1143, uma estrutura organizada de ódio, violência e incitamento. Perante este dado, surgiu uma pergunta repetida nas redes: “Se só cinco eram militantes do CHEGA, os outros 32 eram de que partido?”. A pergunta parece ingénua. Não é. Revela confusão deliberada — ou uma incapacidade persistente de compreender o essencial.

Comecemos pelo básico. Por extremismo violento entende-se uma ideologia que legitima o ódio e aceita a violência como método político. Não depende de cartão partidário. Depende de crença, prática e rede. Os detidos eram todos de extrema-direita. Alguns militantes, outros simpatizantes, outros órfãos de siglas entretanto extintas. A filiação formal é irrelevante quando a afinidade ideológica é evidente, pública e reiterada.

Convém perguntar, o que une estas pessoas? Não é um programa económico, nem uma proposta social coerente. É a normalização do inimigo, a exaltação da força, o gosto pela intimidação. Quando líderes e influenciadores extremistas apelam ao voto e ao apoio político, quando a propaganda circula livremente, quando símbolos e palavras se repetem, forma-se uma cadeia de causalidade. Ideias geram ambientes; ambientes geram redes; redes geram ação.

A operação policial não revelou “excessos isolados”. Revelou organização, hierarquia e método. Armas proibidas, material de propaganda, contactos além-fronteiras. Nada disto nasce do acaso. Há uma ordem interna, uma lógica própria, uma harmonia perversa que transforma ressentimento em disciplina e ódio em identidade.

Há quem tente separar simpatia política de criminalidade organizada. Essa separação é confortável, mas falsa. Nenhuma rede extremista opera no vazio. Recruta em espaços digitais, alimenta-se de medo, explora frustrações reais com mentiras simples. E quando os próprios membros se expõem e se autoincriminam, não é bravura: é imprudência. A história mostra que o extremismo confunde ruído com coragem e acaba por facilitar o trabalho da lei.

É aqui que o Estado de direito se mede. Não pela retórica, mas pela resposta: investigação rigorosa, justiça célere, prevenção séria. Nas escolas, no espaço digital, no debate público. Patriotismo e nacionalismo moderado não são gritos nem punhos cerrados. São responsabilidade, equilíbrio e respeito pela dignidade humana. Amar o país é proteger as pessoas, não organizar o ódio.

Não se pede vingança. Exige-se responsabilidade. A democracia não teme ideias; teme a violência que se veste de ideia. E cada força política tem de decidir se quer ser parte da solução — ou cúmplice do problema.

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