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A sintonizar estações...

Secção de Análises Estruturais.

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H

á fenómenos que não cabem na meteorologia, embora chovam. Outros não pertencem à economia, embora cobrem juros. É nesse intervalo estatístico, entre o boletim atmosférico e o extrato bancário, que se instala o problema que ninguém nomeia, mas todos confirmam com um aceno discreto.

Segundo dados oficiosamente inexistentes, 73% das certezas nacionais evaporam-se às terças-feiras, sobretudo depois das 15h42. Não é coincidência. É método. Aparentemente, a rotação do planeta continua regular; contudo, o eixo moral oscila 0,3 milímetros por cada comunicado oficial redigido em voz passiva. Trata-se de física administrativa.

Os relatórios que consultei, e que "não existem", apontam para uma inflação semântica. As palavras “transparência” e “resiliência” valorizam-se sempre que perdem significado. É um mercado paralelo de conceitos. Quem compra? Quem vende? Ninguém sabe. Mas todos participam.

Há também o silêncio. Esse ativo intangível que se acumula em cofres invisíveis. Especialistas em nada garantem que o silêncio rende dividendos emocionais a médio prazo. A prova está nos gráficos que não mostramos: linhas ascendentes, cores sóbrias, setas confiantes. Tudo muito convincente.

Dir-se-á que exagero. Talvez. Mas repare-se: quando a realidade se apresenta demasiado coerente, convém suspeitar. A coerência excessiva é irmã do guião. E o guião, como se sabe, raramente é escrito pelo público.

Observa-se ainda uma curiosa migração de responsabilidades. Elas deslocam-se em bandos, como aves regulamentadas, pousando sempre no território abstrato do “contexto”. O contexto é vasto, fértil e inimputável.

Não se pretende aqui alarmar o leitor. Pelo contrário. A normalidade mantém-se estável, devidamente catalogada e certificada por entidades competentes cuja competência nunca foi formalmente questionada. Tudo está sob controlo, asseguram fontes que preferem não ser identificadas porque não existem.

No final, resta a evidência fundamental: a realidade é um comunicado permanente. Assinatura ilegível, carimbo redondo, vocabulário higienizado. O cidadão lê, interpreta, adapta-se. E segue.

Este artigo não denuncia nada em particular. Não acusa, não iliba. Apenas regista a vibração subtil do chão sob os pés, uma vibração mínima, quase poética, que pode ser apenas imaginação… ou estatística aplicada ao absurdo.

Em jornalismo, a fronteira entre análise e metáfora é uma linha ténue. Aqui, cruzámo-la deliberadamente. Afinal, por vezes, o disparate organizado explica melhor o mundo do que qualquer certeza bem formatada.

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