- Companhias aéreas podem vir a “trancar” os compartimentos de bagagem de mão durante os voos
- https://sic.pt/sic-radical/noticias/2026-06-11-companhias-aereas-podem-vir-a-trancar-os-compartimentos-de-bagagem-de-mao-durante-os-voos-ea1553d8
- Overhead Bins Could Start to Be Locked During Flights Thanks to Passengers Ignoring Safety Rules
- https://people.com/overhead-bins-may-be-locked-during-flights-if-passengers-continue-ignoring-safety-rules-11995385
O passo seguinte é trancarem o cinto de segurança?
Depois de te sacarem o dinheiro no jogo comercial das tarifas, passas a ser da manada e pouco importa se és cumpridor, esta injustiça fará com que continuem a haver maus passageiros e os bons serão maus. Reparem que, nos dias de hoje, cada vez te retiram mais direitos à sombra da segurança. É tempo de discernir as coisas, acabar com os abusos plausíveis e lógicos pela narrativa única que é imposta, senão seremos consumidores sem direitos. É tempo de uma lista negra de passageiros, mas avaliada por gente idónea e não "chaves da retrete", caso contrário viajar já não é aprazível.
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Isto vem a propósito de uma notícia.
A notícia da SIC Radical, oriunda de outras fontes, coloca o dedo numa das feridas mais expostas da aviação moderna, o braço de ferro constante entre a segurança a bordo, o comportamento dos passageiros e as estratégias comerciais das companhias aéreas. Mas nos dias de hoje cada vez mais se joga com interesses comerciais usando toda a panóplia de razões que fundamentem
A possibilidade de a IATA vir a apoiar mecanismos rígidos para trancar os compartimentos superiores (overhead bins) durante o voo é uma resposta à indisciplina e ao aumento de episódios de turbulência severa. No entanto, quando cruzamos esta intenção com a realidade financeira do que os passageiros pagam, a medida ganha contornos de profunda injustiça comercial. Quantos de vocês escolheram uma tarifa por várias razões, como por exemplo fazer uma viagem longa e querer saber que têm um básico de sobrevivência no caso da mala desaparecer? Isto não conta? Então a noção de viagem desaparece e vão apertar até destruir o negócio. Parece a Madeira com o overturism. Reparem na quantidade de stresse injustiças que jogam para cima das pessoas todos os dias. É claro que ela ficam piores pessoas.
Mas a notícia também nos diz que os rascas do Eduardinho já fazem mossa no céu.
O passageiro moderno já não compra apenas um bilhete, compra um "puzzle" de serviços. As tarifas base foram despidas de tudo, e levar uma mala de cabine (trolley) tornou-se um extra pago, e bem pago, na maioria das companhias. Mesmo que não digam, low-costs e companhias aéreas tradicionais seguem a mesma bitola.
Quando o cliente escolhe uma tarifa superior ou adquire o extra da bagagem de mão, celebra um contrato de transporte que pressupõe o usufruto daquele espaço e o acesso aos seus bens. Trancar os compartimentos sem um critério de emergência real (mas sim por omissão, durante "grande parte do voo") configura uma restrição unilateral do contrato. O passageiro paga mais para ter os seus pertences à mão, mas fica impedido de lhes aceder.
A indústria queixa-se de que os passageiros ignoram as regras, levantam-se quando não devem e sobrecarregam os compartimentos. Contudo, convém lembrar porque é que a febre da bagagem de mão começou!
Primeiro desapareciam mala e davam respostas tortas. Os estragos nunca eram elegíveis para serem reembolsados. Foram as próprias companhias que começaram a cobrar taxas astronómicas pelo porão e a perder malas com regularidade. O passageiro foi empurrado a "viver" de um trolley de cabine para poupar dinheiro e tempo nos aeroportos.
Ao transformar o espaço superior num artigo de luxo altamente rentável, as companhias criaram um sentimento de "propriedade" no passageiro ("eu paguei por este espaço, logo mando nele"). Querer agora resolver o problema comportamental trancando a bagagem é tentar curar o sintoma, ignorando a doença que elas próprias alimentaram.
O argumento principal para esta medida é a segurança contra a turbulência. Mas a segurança tem duas faces.
Como refere a notícia da SIC Radical, um estudo mostra que apenas 61% dos passageiros sabem que devem deixar tudo para trás numa evacuação de emergência. Se os compartimentos estiverem trancados eletronicamente num pouso de emergência, evita-se que as pessoas percam tempo a tentar tirar as malas. Mas e se o sistema falhar? E se o pânico duplicar porque os passageiros veem os seus bens trancados e tentam forçar os trincos, atrasando a saída? A linha entre a segurança e o caos gerado pela ansiedade coletiva é muito ténue. Não se esqueçam que estão a trancar coisas pessoais que até podem ser pertinente num acidente, um doente descompensado...
A aviação civil está a esticar a corda da tolerância do consumidor. Primeiro, retiraram o espaço gratuito depois cobraram-no, agora ponderam trancá-lo.
A segurança dos voos e a integridade física dos tripulantes e passageiros face à turbulência severa têm de ser a prioridade absoluta, mas a solução não pode passar por punir coletivamente quem cumpre as regras. Assim, com tarifas pagas e contratos para cumprir, todos os passageiros passarão a ser maus. Mas quem cria a estupidez? Se a IATA avançar para os trincos eletrónicos, as companhias aéreas terão de redefinir o que estão a vender. Não se pode cobrar uma tarifa premium por um serviço que, depois, é tratado como um risco de segurança confiscável a meio da viagem.
As companhias aéreas estão a destruir outras viagens com o seu segmento, portanto, estamos a ver que os naturais de cada zona estão a ficar agressivos com o excesso de turistas e que as companhias aéreas também democratizaram as viagens e estão a perceber que nem todos têm a mesma "etiqueta".
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