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O deslize para a verdade de Amílcar Gonçalves

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  • "Só os hotéis consomem cerca de 70% da água que a central produz". Amílcar Gonçalves sobre os consumos do Porto Santo.

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ugiu a boca para a verdade. O Porto Santo é totalmente abastecido por água dessalinizada. Devido ao consumo do turismo, os hotéis da ilha chegam a consumir cerca de 70% de toda a água produzida pela central. Alguém parou para pensar e imaginar o paralelismo com a Madeira com água de nascentes e furos?

Então, temos os 2,2 milhões de turistas para 250 mil habitantes, é um ponto de partida. O turismo consome mas do que 8 vezes mais o que os madeirenses consomem. Eu aposto que mais por conta das casas de milhão com piscinas, e vai crescer com os campos de golfe insustentáveis.

Se no Porto Santo a hotelaria já absorve quase três quartos de toda a água disponível (que lá tem de ser criada artificialmente), projetar esse mesmo padrão para a Madeira revela um choque iminente entre o negócio do turismo e a sobrevivência do dia a dia dos residentes.

A Madeira não tem uma "fábrica" de água infinita, o futuro terá o anúncio de uma dessalinizadora? Será o reconhecimento do excesso de carga e da insustentabilidade. Por enquanto, a Madeira depende das chuvas e da retenção nas montanhas. Se a hotelaria e o imobiliário de luxo mantiverem a fasquia de consumir a maior fatia da água disponível para alimentar piscinas, jacuzzis e relvados de golfe, a corda vai partir pelo lado mais fraco. Em anos de seca, a prioridade económica dada ao turismo ditará que faltará água primeiro nas torneiras das populações locais e nas levadas dos pequenos agricultores do que nos resorts.

O primeiro passo foi um encarecimento descomunal da água.

Quando um hotel ou um condomínio de luxo consome volumes massivos de água para manter os seus padrões de lazer (como os campos de golfe de 18 buracos), estão a esvaziar os aquíferos que pertencem a toda a região. Na Madeira, isto ganha contornos dramáticos, a água que deveria abastecer o consumo humano e a agricultura tradicional é desviada para manter o "postal turístico" verdejante. É uma transferência de recursos públicos para o lucro privado.

Manter um nível de consumo de 70% por parte dos hotéis numa ilha com recursos finitos vai obrigar a Madeira a investir em soluções extremas e dispendiosas para não secar, como centrais de dessalinização ou mais bombagens complexas a partir do norte. Como estes investimentos públicos são brutais, o preço da água por metro cúbico vai disparar. Quem vai pagar essa fatura nas taxas municipais não são apenas os hotéis; serão os residentes, que verão o custo de vida aumentar para sustentar o desperdício turístico. Já vimos isso e vai piorar.

Para canalizar água suficiente para manter a "febre" das AL's, hotelaria, piscinas e dos golfes, a pressão sobre as redes de levadas e caudais ecológicos será máxima. Isto significa retirar mais água à floresta Laurissilva e ribeiras, secando ecossistemas inteiros para manter relvados artificiais e poços de água privados. A natureza vai ser furtada e vai ter reflexos depois nos incêndios.

O modelo de desenvolvimento atual da Madeira está a tratar a água como um recurso infinito para gerar lucro imediato. Se o consumo hídrico da hotelaria na Madeira atingir a proporção avassaladora que já tem no Porto Santo, a ilha caminha para um cenário onde a água passará de um direito básico a um luxo racionado, gerando uma profunda injustiça social entre quem visita e quem lá vive.

Ainda bem que o madeirense não se importa com nada! Quando a ilusão acabar vão aparecer más notícias sem fim. Vaticínio mais do que certo.

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