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Façamos uma pausa para uma pergunta simples, quantas famílias madeirenses existem cujo arquivo nunca será doado a ninguém, porque nunca houve arquivo, porque nunca houve escrituras, porque nunca houve testamentos a lavrar?
Quantas famílias de agricultores, de pescadores, de bordadeiras que passaram a vida inteira a bordar para casas inglesas sem nunca saberem o nome de quem usava o que os seus dedos criaram, quantas dessas famílias têm entrada no Arquivo e Biblioteca da Madeira?
Mas a Família Freitas Branco tem documentos desde 1656. E a Madeira trata-os com o cuidado e a reverência de quem ainda não percebeu, ou não quer perceber, que o período colonial acabou. Há colónias que se mantêm pela força do hábito. Pela aprendizagem, durante gerações, que o inglês que chega à ilha merece tapete vermelho, e o madeirense que nasceu cá merece fila de espera.
As famílias do vinho, as famílias do bordado, as famílias com apelidos que soam a fim de tarde em Londres, essas famílias moldaram a Madeira à sua imagem. E a Madeira deixou. E continua a deixar.
Com toda a simpatia para com Wendy, que teve a generosidade de partilhar o arquivo familiar, e isso é genuinamente positivo, a pergunta que ninguém faz na cerimónia de assinatura do contrato de doação é... onde está o arquivo da avó de qualquer madeirense comum?
Onde estão os documentos da família que durante séculos cultivou a terra que as famílias inglesas compraram? Que colheu a uva que as famílias inglesas exportaram? Que bordou os lenços que as famílias inglesas venderam ao mundo com o nome da ilha e o lucro no bolso?
Não estão no arquivo. Não existem. Ou existem em caixas de cartão em casas que já foram demolidas para dar lugar a mais um apartamento turístico com palmeiras à volta.
E quem tutela a Cultura nesta ilha? Eduardo Jesus. O mesmo senhor que encontrou tempo no seu calendário político para receber a Wendy. Secretário de Turismo, Ambiente e Cultura, três palavras que na prática significam... receber bem quem vem de fora, ignorar o que se destrói cá dentro, e chamar cultura ao que é na verdade reverência antiga por quem nunca foi daqui.
A Madeira tem uma cultura extraordinária. Tem música, tem festa, tem gastronomia, tem uma relação com a terra e com o mar que nenhum testamento do século XVII consegue capturar. Tem histórias que vivem na memória oral porque nunca houve ninguém que as achasse dignas de arquivo.
Essas histórias estão a morrer.
Com as pessoas que as guardam.
Enquanto o Arquivo e Biblioteca da Madeira recebe, mais um legado de uma família cujo apelido soa bem em 2 idiomas.
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