Type Here to Get Search Results !
A sintonizar estações...

A Eleição Errada!

Moderação 0


H

á cargos que exigem método, estudo e contenção. O de Presidente da República é um deles. Convém, por isso, começar pelo essencial: o Presidente não governa, não legisla, não executa políticas públicas. Representa o Estado, garante a Constituição, modera conflitos e protege o equilíbrio democrático. Quem confunde estas funções está, desde logo, na eleição errada.

André Ventura fala como chefe parlamentar permanente. Ataca, acusa, simplifica. Não apresenta propostas próprias para Belém porque continua a disputar São Bento. Trata o cargo presidencial como se fosse um púlpito executivo. Não é. A Presidência exige prudência, cultura institucional e sentido de Estado. Exige dúvida antes da palavra e responsabilidade antes do gesto.

Quando se observa o discurso, o padrão é claro. Não há pensamento estruturado sobre saúde, economia, justiça, ciência ou educação. Há slogans. Não há visão de longo prazo. Há conflito imediato. Não há explicação. Há agressão verbal. O ataque substitui o argumento. A acusação ocupa o lugar da política. A ordem imposta passa por solução única para uma realidade complexa que se recusa a compreender.

Este método não é impulso. É cálculo. Repete-se porque fideliza um eleitorado magoado e cansado, que já não espera progresso, apenas nivelamento. Não procura liberdade, procura comando. Não quer leis, quer ordens. Não quer representação, quer hierarquia. A democracia surge como meio, não como valor. Serve enquanto legitima o poder. Quando limita, torna-se descartável.

A retórica é sempre a mesma: bodes expiatórios recorrentes, minorias transformadas em ameaça, medo apresentado como virtude cívica. A autoridade aparece como promessa de segurança, não para governar a complexidade, mas para a eliminar. A religião entra como cenário. A fragilidade pessoal surge como encenação pública. O sofrimento é usado como capital político. A mentira repete-se até parecer familiar. Não para convencer, mas para cansar.

Nada disto constrói um projecto de país. É um modelo de poder. Financia-se a polarização porque mobiliza sem exigir pensamento. Simplifica-se o mundo para o tornar controlável. Mas o Estado não é uma claque, nem a Presidência um megafone.

Uma República madura precisa de equilíbrio, não de ruído. Precisa de quem saiba unir, não dividir; moderar, não incendiar; representar todos, não apenas os fiéis. Quando a forma de fazer política se baseia na eliminação do limite, o problema não é de estilo. É de incompatibilidade com a democracia.

Enviar um comentário

0 Comentários
* Sujeito a moderação. Seja cordial, educado e não faça spam.