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Há uma reação quase automática sempre que o Chega cresce, a oposição que perde corre a desvalorizar, a moralizar e a insultar implicitamente o eleitorado. Diz-se que é “protesto”, diz-se que é “raiva”, diz-se que é “populismo”. O que não se diz é a parte mais incómoda, o sistema político criou isto e inferniza a vida dos cidadãos.
Lendo o “Voto de protesto que não deve ser ignorado”, percebe-se que alguns analistas já perceberam o óbvio. O voto não é um erro estatístico nem um surto coletivo. É uma resposta, muito pensaram no mesmo e produziram uma votação livre. O crescimento do Chega é uma reação a anos de governação confortável e de oposição cúmplice, mais preocupada em garantir lugares, assessorias e nomeações do que em representar quem trabalha, paga impostos e espera quase sempre em vão.
O problema não é o Chega crescer.
O problema é por que cresce.
Não sou fascista, mas achava que o crescimento do Chega abanaria o sistema, pelo que vejo não! É do tipo vamos aproveitar enquanto estamos por aqui a usufruir do sistema. Há instrumentalização e egoísmo no sistema.
Na Madeira, como no resto do país, instalou-se a sensação de que a política é uma panelinha bem oleada. Governo e oposição fingem que se combatem, mas no essencial convivem bem. Hoje criticam-se, amanhã sentam-se nos mesmos conselhos, fundações, empresas públicas ou lugares “técnicos” com cartão partidário invisível. Quem está dentro vive protegido. Quem está fora que se desenrasque. Repensem quantos da oposição se venderam, estão bem e desapareceram. Mas também daqueles que na oposição minam a alternância ou desgraçam partidos.
E quando alguém aponta isto, a resposta não é reflexão, é desprezo. Trata-se o eleitor irritado como ignorante, perigoso ou manipulável. Nunca como alguém que já não aguenta mais ser tratado como parvo.
O voto de protesto é o grito de quem percebeu que votar “nos de sempre” já não muda nada. Que a alternância é cosmética. Que as promessas reciclam-se. Que os discursos são bonitos, mas os resultados servem sempre os mesmos. É um voto que diz... se este jogo está viciado, então vou descambar a mesa.
O mais grave é a arrogância com que muitos responsáveis políticos lidam com isto. Em vez de fazerem um exame de consciência, preferem demonizar quem cresce. Em vez de perguntarem “onde falhámos?”, perguntam “como é que as pessoas ousam votar assim?”. Esta atitude não trava o protesto, radicaliza-o.
Ignorar ou desvalorizar este fenómeno é brincar com fogo. As Democracias não colapsam apenas por extremismos; colapsam quando uma elite política se fecha sobre si própria e perde qualquer ligação real ao país que diz representar. Quando o cidadão comum sente que a política é um clube privado, a confiança desaparece, e sem confiança, não há democracia que aguente.
Se querem travar o voto de protesto, há uma solução simples e dolorosa, acabar com a promiscuidade, os tachinhos, o carreirismo e a hipocrisia. Fazer política uma séria. Representar pessoas reais, com problemas reais. Tudo o resto é teatro.
O povo já saiu da plateia.
Tudo isto a propósito dos homologados do regime a debitar no DN... mais crescimento do Chega.
COMO TRAVAR O CHEGA? O CASO DE ISALTINO MORAIS, por Bárbara Reis in Público (este último link é gratuito, o seguinte na data é pago, são o mesmo), 7 Junho 2025 no jornal Público
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