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A sintonizar estações...

A "reserva natural" do lixo.

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nquanto no Continente a publicidade chama de "Atrasados Ambientais" a quem não recicla, aqui na Madeira parece que levámos o termo demasiado à letra. Até tenho medo de pensar qual será o rótulo deste vasilhame chamado Madeira. Segundo o investigador Hélder Spínola, da Universidade da Madeira, a nossa taxa de reciclagem não chega sequer a metade da que se pratica por terras lusas continentais. Ou seja, enquanto eles por lá se sentem culpados, nós por cá vivemos alegremente das medalhas do Eduardinho, com o lixo a crescer de forma insustentável através da aberração do turismo massivo. Será que ainda existe negacionistas da insustentabilidade como os há no clima?

Dizem que ser ilha justifica tudo, no preço da banana, pelo isolamento e, pelos vistos, a incapacidade de governar contando com isto, ou ainda acreditam na elasticidade? Não nos enganemos, estar cercado por água não transforma o plástico em peixe, nem o cartão em areia dourada. É obra! Conseguimos ter uma das taxas mais baixas de reciclagem do país que, pela média, já é uma vergonha. Será que há um concurso para receber uma medalha disto?

Queremos milhões de turistas, queremos hotéis em cada escarpa, mas esquecemo-nos de um pequeno detalhe, os turistas também fazem lixo. E muito. Consomem água, dejetam, ocupam as vias. Tudo tem um limite de carga, a elasticidade é uma anedota.

Vendemos o destino natureza mas já temos um oásis de lixo a meio da serra a crescer. Do que gosto mais são dos pneus, nem acendam velas aos santos que ainda pega lume nalgum e vai ser maravilhoso.

Numa ilha com a orografia e o espaço limitado da Madeira, o choque entre um "inverno demográfico", onde a população local envelhece e diminui, e o crescimento exponencial de resíduos do turismo massivo, criamos uma bomba relógio ambiental, é preciso coragem para decidir. Os errantes não o farão! Enquanto os residentes "mingam", a infraestrutura de gestão de lixo é forçada a operar para uma população flutuante que não pára de crescer, transformando a ilha num cenário onde o rácio de produção de lixo por habitante real é mascarado pela pegada pesada dos visitantes, levando os aterros e sistemas de tratamento à rutura física muito antes do previsto. Já falaram da água, dos campos de golfe, das redes viárias, dos esgotos e agora estamos no lixo, entulhos, obras...

A curto prazo, esta insustentabilidade traduzir-se-á numa degradação visual e sanitária dos pontos turísticos mais emblemáticos, onde a recolha não conseguirá acompanhar o ritmo de descarte de embalagens e resíduos orgânicos da hotelaria e restauração. O custo desta "herança" será empurrado para os residentes locais que, apesar de serem cada vez menos e produzirem menos, verão as suas taxas municipais de resíduos disparar para financiar a expansão de sistemas de incineração ou aterros necessários para processar o lixo deixado por quem apenas está de passagem.

Escrevam, a mesma história da água.

Por fim, o "cartaz" da Madeira como destino de natureza imaculada acabará por ser vítima do seu próprio sucesso. Sem uma taxa de reciclagem que acompanhe este volume e sem mecanismos que obriguem o setor turístico a internalizar os custos da sua pegada ambiental, a ilha corre o risco de se tornar um "parque temático" saturado, onde a qualidade de vida do madeirense é sacrificada em nome de estatísticas de dormidas que, ironicamente, deixam para trás um rasto de poluição que a demografia local já não tem braços (nem jovens) para limpar ou gerir.

A culpa não morrerá solteira Eduardo Jesus! Não sabes o que estás a fazer.

Quem se lembra do incêndio de 28 de novembro, último, na Meia Serra? "Cozem" o lixo em lume brando, depois a receita manda regar de vez em quando, para o lume não enlouquecer. Temos tido  vento, se ele passa o lume brando para a área dos pneus vai ser melhor do que a passagem de ano, mais lume e mais fumo.

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