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xistem situações na política que desafiam a explicação, a lógica e, por vezes, a própria estrutura do poder. Um exemplo disso é o caso peculiar do antigo vereador da Câmara Municipal do Funchal que, por motivos amplamente conhecidos, deixou o cargo para liderar a juventude de um partido na Madeira. É aí que o insólito se manifesta.

No período em que foi vereador, a sua atuação política parecia seguir um padrão de momentos estratégicos. Surgia, sumia, comunicava, desaparecia. Era como se estivesse sempre em “modo noturno”, onde as decisões municipais eram tomadas entre brindes e avisos rápidos. A câmara realizava reuniões, mas ele demonstrava uma certa despreocupação. Alguns consideravam desleixo, outros viam como descontração. Ele talvez chamasse de “estilo”.

No entanto, ao deixar o cargo por vontade própria, ele renasce. A saída pareceu ter um efeito purificador. A “ressaca” da câmara passou (figurativamente, claro) e, com ela, a postura instável. De repente, tornou-se o político mais ativo da Madeira e arredores. Comunicados aparecem como boletins do tempo. Discursos apaixonados, análises profundas, indignações direcionadas. É o primeiro caso de um político que trabalha mais após sair do cargo do que quando o ocupava.

Há algo de tocante nessa transformação. Livre das tarefas de gestão, finalmente encontrou tempo para fazer política. E que política! A política dos comunicados. A política das reações imediatas. A política do “estamos de olho”. Se governar exige presença, decisão e responsabilidade, comunicar só precisa de um teclado e internet. E nisso ele se mostra incansável.

Como vereador, governava discretamente. Como líder da juventude partidária, controla a narrativa. Talvez esse seja o segredo: é mais fácil criticar a si mesmo do que lidar com a administração real de uma área na cidade.

No fundo, a sua trajetória ensina-nos algo. Mostra que algumas carreiras políticas prosperam na ausência do poder. Que alguns descobrem a paixão pelo trabalho quando deixam de ter obrigações formais. E que, em certos casos, perder o cargo é apenas ganhar destaque.

Resta saber se essa nova produtividade é resultado de amadurecimento político ou apenas da liberdade de quem não tem atas para assinar ou áreas para administrar. E fica a dúvida: quando voltar a ocupar um cargo, pois na política ninguém se aposenta, apenas faz pausas, que responsabilidade terá? Esperemos que não seja novamente uma daquelas onde a gestão se confunde com celebração prolongada com muito álcool e bar aberto e onde os atropelos, administrativos ou comportamentais ou ao volante, acabam sempre classificados como meros “excessos de contexto”. Afinal, há experiências que servem para aprender, outras, apenas para confirmar padrões.

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