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O desgaste da democracia e o poder perpétuo.

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A

s recentes intervenções de Miguel Albuquerque sobre a sua continuidade no Governo Regional da Madeira exigem uma análise crítica e rigorosa. Ao responder aos seus opositores que «vai continuar no poder» porque estes «não percebem estas coisas», o atual líder revela uma conceção de governação que se afasta dos princípios básicos de uma República equilibrada. A política não é um exercício de posse pessoal, mas um serviço público temporário que exige abertura ao diálogo e à renovação constante de ideias e de protagonistas.

A trajetória política de Albuquerque, marcada pela ausência de oposição interna e pela permanência em cargos de chefia desde os tempos da Câmara Municipal do Funchal, sugere a criação de uma «bolha política». Este isolamento parece impedir o Governo de ver a realidade socioeconómica que atinge a maioria dos madeirenses. Existe uma clara inversão de prioridades quando o debate público se foca em obras de ampliação portuária ou em projetos turísticos de luxo, enquanto os cidadãos enfrentam dificuldades gritantes no acesso à habitação social e a custos acessíveis.

Uma governação responsável deve focar-se no combate estrutural à pobreza e no reforço dos serviços públicos, especialmente na modernização do sistema de saúde. No entanto, o que vemos é uma insistência em investimentos como campos de golfe e teleféricos, que parecem servir apenas interesses de elites económicas e grandes investidores. Este modelo de desenvolvimento exclui a população local e aumenta as desigualdades no arquipélago. O mandato democrático não deve ser usado para favorecer grupos restritos, mas sim para garantir que a autonomia sirva o bem-estar de quem vive e trabalha na Madeira todos os dias.

Além disso, a concentração de poder e a resistência à crítica institucional são sinais de um modelo de gestão centralizado e pouco transparente. A presença de figuras constituídas arguidas em cargos de decisão política lança dúvidas sobre a integridade ética do sistema atual. É fundamental recordar que a autonomia madeirense é fruto da democracia conquistada em 1974. Numa República moderna, o poder deve ser responsável, limitado e sujeito a uma alternância saudável. Não existem cargos vitalícios nem poderes acima do escrutínio público e da justiça.

A Madeira não pode continuar refém de uma narrativa de inevitabilidade. A verdadeira força da autonomia reside na sua capacidade de se regenerar e de responder às necessidades reais das pessoas, em vez de se perder em projetos de exibição e na perpetuação de nomes no poder. A política deve regressar às ruas e desligar-se dos interesses de gabinete. A democracia exige que os governantes saibam quando o seu tempo de contribuir terminou, dando lugar a novas soluções que coloquem a dignidade dos cidadãos acima das ambições pessoais. A renovação não é opcional; é a base de uma sociedade livre, próspera e verdadeiramente justa para todos os residentes.

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