A Madeira não copia o que funciona usando a experiência dos outros. Quer ser superior e borra-se. Foi assim com o Subsídio Social de Mobilidade e, com a porta da Sé também. Ninguém quis saber como fazem noutros patrimónios nacionais e, agora, cria-se uma narrativa para ser bem acolhida, como faz o Governo Regional. Primeiro faz-se, depois estuda-se.
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Se for clero e for pelo bem-estar imediato extingue-se a lei? Nenhum monumento nacional pode ser alterado sem a autorização prévia e técnica da tutela do património (neste caso, a Direção Regional da Cultura ou organismos equivalentes). Se assim for, retire-se o património da Igreja da Lei e façam com ele o que desejarem. Mas não peçam dinheiro público para restaurar. É um incongruência restaurar e destruir no mesmo património, é conforme quem paga?
Ao agir por iniciativa própria, o Cónego ignora que o património não pertence à Igreja, mas à Nação e à Humanidade. Não escrevi o ensaio anterior por acaso, foi para esclarecer exatamente isto! Património NACIONAL é NACIONAL!
Se cada cidadão decidir "ajustar" o património à sua conveniência (ex: abrir uma janela numa muralha para ter mais luz), a memória histórica desaparece. A lei existe para evitar decisões unilaterais baseadas em visões subjetivas de "conforto".
A justificação de que o corte era a "única solução" para a circulação de pessoas ou cadeiras de rodas é tecnicamente questionável. E tal como escrevi anteriormente falaciosa, porque senão das duas uma, ou são todos burros no estrangeiro ou há falta de mundo nesta terra e qualquer justificação serve.
Na conservação moderna, a regra de ouro é a reversibilidade. Qualquer intervenção deve poder ser desfeita. Serrar madeira original é uma intervenção irreversível.
Existem soluções de engenharia e arquitetura (como calhas discretas, rampas móveis ou mecanismos de abertura diferenciados) que permitem a acessibilidade sem destruir o objeto histórico. A pressa ou o custo não justificam a mutilação da arte. O senhor Cónego que comece a viajar porque nem todos são tapadinhos à mercê do SSM.
A Sé do Funchal é um dos raros exemplos do estilo manuelino na região. Um monumento é um documento histórico. Ao cortar a porta, altera-se a leitura original da peça. A função de um edifício histórico não deve ditar a destruição da sua forma. Se a porta era um obstáculo, o dever de quem a tutela é adaptar a utilização à porta, e não a porta à utilização moderna de forma destrutiva. Assim entra na moda outra forma de locomoção e a porta vai apanhar com as culpas de novo. Nunca se sabe quando se terão duas portas abertas para os turistas passarem de carro.
O argumento do "maior bem das pessoas" é uma ferramenta retórica poderosa, mas vaga. É por isso que o Cónego tem os mesmos tiques de propaganda do poder e pode-se juntar ao colega do Colégio, capaz de justificar um buraco para estacionamento entre vários monumentos nacionais e históricos.
Mas quem define o "bem maior"? Em causa própria? Se o conforto de alguns justifica cortar uma porta do século XV/XVI, o que impede a remoção de azulejos para passar cabos elétricos ou a substituição de pedraria por cimento por ser "mais seguro"? Isto é para vermos que a linguagem se adapta à necessidade. O Cónego viu como reconstruiram a Notre Dame de Paris? Alteraram algo na reconstrução segundo o original? Esta coisa de monólogos é só na Igreja.
O maior bem da comunidade a longo prazo é a manutenção da sua identidade cultural intacta. A conveniência de hoje é o arrependimento de amanhã. A Madeira está num absurdo de demolir e adulterar património. Só se pode chegar a uma conclusão. Falta de cérebro.
Como entidade que gere um bem público de interesse nacional, a Igreja tem uma responsabilidade ética acrescida. A falta de consulta pública ou de pareceres técnicos transparentes antes da execução do corte demonstra uma gestão de "facto consumado". O Cónego é responsável pela Sé, não dono e não faz a Lei à medida do momento.
O Clero deve se submeter às mesmas regras que qualquer proprietário de um imóvel classificado, o respeito rigoroso pela integridade do objeto, independentemente do estatuto de quem decide. O Governo regional é capaz disso, a Diocese é capaz disso? Não porque estamos no Regional Porreirismo e estas pequenas almas cobrem-se uns aos outros.
Justificar a destruição parcial de património com a "caridade" ou a "acessibilidade" é um falso dilema. A verdadeira caridade para com as gerações futuras é entregar-lhes o património tal como o recebemos, encontrando soluções inteligentes que não envolvam uma serra.
Na Lei de Deus, podemos mentir por uma boa causa, por muito subjetiva que seja? Assim tipo máfia no bom sentido...
Para terminar, o argumento das "velhinhas" tropeçarem não tem qualquer cabimento, sabe, ainda esta semana quando estive na Sé, a porta exterior tinha as duas portas mais pequenas abertas com as respetivas tábuas inferiores lá no sitio. Tropeçam nas segundas portas e nas primeiras não? Não faz qualquer sentido e é um argumento falso. Espero não lhe ter dado a ideia de cortar mais umas portas! A Sé como monumento nacional pode ter uma ação no Ministério da Cultura.
- https://www.jm-madeira.pt/religiao/se-do-funchal-justifica-corte-de-portas-apos-criticas-de-crime-contra-o-patrimonio-JF20162748
- https://www.dnoticias.pt/2026/5/10/491463-se-do-funchal-explica-intervencao-em-portas-da-catedral/
- https://funchalnoticias.net/2026/05/10/conego-marcos-goncalves-esclarece-para-o-maior-bem-das-pessoas/
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