P
or estes dias tem sido noticiado o encerramento de empresas e a baixa na abertura de novas na Madeira, portanto, o panorama empresarial na Madeira vive um momento de forte contraste. Se por um lado assistimos ao encerramento de negócios tradicionais (perseguição nas rendas) ou empresas recentes e ainda a uma quebra acentuada no ritmo de constituição de novas firmas, por outro torna-se evidente que o ciclo económico recente foi distorcido por uma autêntica "corrida ao ouro" dos fundos comunitários. A realidade atual demonstra como a dependência e a gestão do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) moldaram e, em parte, fragilizaram o tecido económico regional. Vamos ver quanto tempo mais falam de PIB.
É caricato o Plano de Recuperação e Resiliência provocar isto, mas não somos anjinhos para perceber o que se passa. Para compreender a desaceleração na abertura de empresas, é preciso recuar ao período de lançamento e contratualização das principais frentes do PRR. Assistiu-se, na altura, a uma autêntica "folia" de novas constituições jurídicas. Multiplicaram-se nos registos da Região novas firmas nas áreas da consultoria, transição digital, construção civil e energias renováveis.
Contudo, este "boom" não representava uma lufada de ar fresco de empreendedorismo sustentável ou de jovens criadores a fixarem-se no mercado local. Tratou-se, em grande parte, da criação de empresas de conveniência ou de circunstância. O objetivo foi claro, preencher os requisitos burocráticos mínimos, apresentar candidaturas específicas e aceder ao "pote de milhões" disponibilizado pelas diferentes componentes e agendas mobilizadoras do PRR na Região.
Estas estruturas foram desenhadas para captar a liquidez imediata dos fundos a fundo perdido e dos novos instrumentos de capitalização, e não para garantir postos de trabalho a longo prazo ou para acrescentar valor económico duradouro à Madeira. Uma vez submetidos os projetos ou esgotadas as consultorias de fachada, muitas destas empresas entraram em hibernação ou foram liquidadas, deixando atrás de si uma inflação estatística artificial.
Com o calendário do PRR a aproximar-se do seu termo e com a maior parte das dotações financeiras já comprometidas ou retidas em teias burocráticas e auditorias, a "folia" terminou. A quebra atual na abertura de novas empresas é a prova provada de que o mercado regional não está a gerar dinâmica orgânica. Sem o engodo dos milhões fáceis do PRR, o ritmo de criação de empresas regressou à dura realidade de uma economia insular fustigada pela perda de poder de compra e pelos custos da ultraperiferia.
O encerramento de empresas na Madeira e o abrandamento na criação de novas alternativas não são meras flutuações de mercado. São o sintoma de uma economia regional que foi dopada por fundos europeus mal canalizados, onde se priorizou a caça ao subsídio em detrimento da sustentabilidade e da sobrevivência do comércio e das empresas que verdadeiramente alimentam as famílias madeirenses.
Perdemos de novo uma oportunidade.
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