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Madeira descobriu finalmente o segredo do turismo de luxo do século XXI. lustres de cristal na receção, cocktails com espuma molecular no bar e trabalhadores explorados a aprender regras básicas de higiene à velocidade de um micro-ondas avariado. O verdadeiro cinco estrelas moderno já não se mede pela qualidade do serviço, mas pela criatividade contabilística com que certos impérios turísticos transformam salários dignos numa espécie de lenda urbana.
Dizem que falta mão-de-obra. Curioso. O que realmente parece faltar é vontade de pagar salários decentes, investir em formação séria e tratar trabalhadores como seres humanos em vez de peças descartáveis com pulseira de funcionário. Há hotéis onde o buffet parece saído de uma revista de arquitetura, mas os bastidores lembram uma tese experimental sobre precariedade tropical em ambiente climatizado.
Naturalmente, a culpa não é dos trabalhadores estrangeiros que chegam à Madeira à procura de sobrevivência. A tragédia começa antes, empresas que importam mão-de-obra barata sem formação adequada, sem integração real e, muitas vezes, sem preparação para normas laborais e sanitárias locais. Depois fingem choque quando aparecem falhas básicas de comunicação, segurança ou higiene. É o equivalente empresarial a comprar um paraquedas no mercado dos chineses e ficar surpreendido porque aterrou diretamente na ortopedia.
Entretanto, trabalhadores madeirenses com experiência, formação e conhecimento da realidade local são tratados como um luxo excessivo. O mercado turístico descobriu uma nova religião, o Culto da Margem de Lucro Eterna. Nesta fé moderna, cortar custos substituiu competência, dignidade e bom senso. O altar é o Excel. O sacerdote é o consultor financeiro. E o sacrifício ritual faz-se sempre com o salário do trabalhador.
Há também uma ironia deliciosa nesta ópera sanitária. Os mesmos empresários que vendem “excelência premium” e “hospitalidade de classe mundial” parecem acreditar que formação profissional é um detalhe decorativo, como salsa num prato gourmet. Resultado, cozinhas onde reina o improviso, horários que fariam um gladiador pedir baixa médica e equipas montadas à pressa porque o importante é manter a máquina turística a produzir selfies para o Instagram.
Depois surgem os especialistas do costume, pioneiros olímpicos da ginástica mental, a explicar que questionar este modelo é “xenofobia”. Magnífico truque. Criticar exploração laboral virou pecado, desde que o explorador tenha um hotel com rooftop e música lounge. A lógica é tão artisticamente deformada que merecia exposição permanente num museu de surrealismo administrativo.
Uma sociedade séria protege trabalhadores, exige formação, fiscaliza condições e valoriza quem conhece a terra onde trabalha. O resto é teatro corporativo com aroma a desinfetante barato. Porque luxo verdadeiro não é ter mármore italiano na entrada. É não transformar trabalhadores e clientes em figurantes involuntários de um laboratório de precariedade com vista para o mar.
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