A
cartada do tropeço na igreja católica é sempre eficaz. Serve para salvar a pele de criminosos e pecadores em pecados mortais e veniais, mesmo que alguns deles sejam claramente crimes. É o que se tem visto no descalabro das alterações que a Sé do Funchal tem sofrido nos últimos anos.
Agora foram as portas do catavento que foram descaraterizadas, destituídas da sua base de segurança. Tudo «por um bem maior», as «velhinhas não tropeçarem». As bacias das velhinhas idosas pelo menos naquela casa estão asseguradas.
As várias alterações com remendos, retiradas de peças antigas e mutilação de outras, como no caso das portas do catavento e a prevista intervenção na torre, estão a ser designadas de «requalificação». Santos e beatos novos que para ali estão a ser colocados sem nexo nenhum pelo contexto histórico e respeito pelo património, servem para pregações exaltadas como se de teofanias se tratassem.
A mediocridade e tropelias são tantas que já tropeçam demais, resultando em quedas fatais e que deviam levar um processo de excomunhão por negligência.
Deve-se supor que o Código Direito Cónico, artigo 3, parágrafo único diz: «é melhor porta serrada que velhinha acidentada». Os seminários de hoje ensinam isto com insistência, mas ainda assim parece que as atenções andam mais fixadas em prazeres mundanos, nada elevados à categoria do «bem maior».
O contraste visual pode ser este, esta tábua é rebarba litúrgica. Se a Dona Micas prende a bengala aqui, a responsabilidade civil é da Mitra e isso vai dar uma embrulhada no palácio episcopal fazendo disparar os diabetes episcopais para níveis insuportáveis. Não é preciso que tal aconteça. Corta-se o mal pela raiz, nem velhinhas nem bispo prendem as bengalas e báculo na saliência litúrgica das tábuas.
O sacristão ainda falou a medo do atentado, mas nada conseguiu, porque quem manda pode. Alguém veio dizer-nos que ainda ouviu o seguinte diálogo.
Sacristão: Padre, (padre não, cónego), sim, desculpe. Pelo amor de Deus, isso vai dar que falar, a segurança da porta está nessa tábua!
Cónego: (ofegante, olhando para o serrote), crime é deixar as velhinhas tropeçarem, meu filho. Tu assumes a responsabilidade quando a Dona Manuela quebrar a bacia?
Sacristão: mas o senhor está serrando uma porta antiga e tábuas importantes para segurar toda a estrutura da porta, porque não abrimos a porta inteira em vez de serem só estas mais pequenas e assim nada fica mutilado...
Cónego: Justamente. Saliências históricas altamente tropeçáveis. As más línguas que tropecem nas saliências deles, eu estou salvando fémures e bacias das beatas do século XXI. Podes crer, isso é que vai ser histórico.
Sacristão: Porque é que o senhor emparelha as tábuas tão cuidadosamente?
Cónego: Provas. Vou mandar as tábuas para a Cúria como prova do meu bom senso e do meu cuidado com as almas. Mais uns pontos que penduro nos cornos da mitra.
Nos entretantos entra a Dona Judite de 86 anos, deparando-se com o aparato junto ao catavento.
Dona Judite: Sr. cónego, que barulheira é esta?
Cónego: (sem assombro nenhum de se ter picado) Dona Judite! Estava mesmo a pensar em si. Estas tábuas são um atentado à sua proveta idade e um atrapalho à sua bengala. Cortei o mal pela raiz. A senhora agora passa que nem uma jovem. Glória a Deus nas alturas e paz na terra onde alguns homens podem, querem e mandam.
Dona Judite: Mas eu sempre dei o pulinho nesse degrau desde que me reconheço como gente e desde que comecei a passar pelo meu pé estes vetustos umbrais da Sé do Funchal.
Cónego: (para o sacristão, esboça um sussurro), vês? Efeito placebo. A fé move montanhas. E serrotes.
A Dona Judite virou costas e entrou para o seu canto habitual onde desfiou três terço de rajada pela conversão do mundo e do clero.
O cónego recebe uma chamada, era o bispo que ele colocou em alta-voz para que o sacristão escutasse como se fosse a voz de Deus confirmando a obra.
Voz do bispo: sr. cónego, conseguiu? Só com duas tábuas não se consegue negócio nenhum, não sendo a porta inteira fazem logo um resgate que acaba em nada o preço.
O cónego manda o bispo parar de falar, porque percebe que Dona Judite tem o ouvido à escuta na conversa. Silêncio.
Cónego para Dona Judite: Vê como ele está preocupado consigo, Dona Judite. Quer mandar a porta inteira para o céu… quero dizer, limpar tudo. Para que a senhora e mais nenhuma beata tropece nem por baixo nem por cima. Mas, para começar e não dar muito nas vistas, acho que agora vou cortar a porta para cima, por causa das "hastes" de alguns, os Vexilos e a Sombreiras eclesiásticas, quais Cavicornes e Plenicornes que muitos carregam.
Dona Judite: Esta igreja está cada vez mais moderna…
E assim vai a Lei da Acessibilidade Celestial: bem-aventurados os que não tropeçam, porque deles é o piso liso e nivelado. Não é serragem, é «pó de inclusão, que vou vender como sacramental e cura de joanetes».
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