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Turismo e Verdade!

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 tese do “turismo rasca” tenta fazer uma coisa muito simples: culpar o visitante para poupar o modelo. É um truque velho. Quando há pressão na habitação, nos salários, na água e nos serviços, o problema não desaparece por ser escondido atrás de palavras bonitas ou de ataques ao turista barato. O problema está na forma como o turismo é organizado, distribuído e concentrado.

Há uma diferença clara entre turismo massificado e turismo de proximidade. Um modelo fecha o dinheiro dentro de grandes grupos, hotéis e pacotes “all inclusive”, onde o visitante dorme, come e gasta quase tudo no mesmo sítio. O outro espalha o gasto pela rua, pelos cafés, pelos restaurantes, pelos táxis, pelos autocarros, pelos pequenos alojamentos e pelo comércio local. Um cria circulação. O outro cria fecho. Um ajuda muitos. O outro concentra tudo em poucos.

Por isso, misturar turistas de baixo custo com “invasão” ou “excesso” é má fé ou preguiça intelectual. Não é a mochila que destrói uma economia. Não é o bilhete barato que faz subir a renda. Não é o turista que decide a política de solos, as regras do alojamento, a oferta de transportes ou o preço da vida. Isso é trabalho do poder político e dos grandes interesses que mandam no sector. Quando se aponta o dedo ao visitante, desvia-se a atenção de quem lucra mais.

Também é falso dizer que quem critica este modelo está contra a Madeira. É o contrário. Defender limites, regras e equilíbrio é defender a ilha. Defender o pequeno empresário, a pensão local, a pastelaria, o café, o taxista e o restaurante de bairro é defender a economia real. O que não faz sentido é proteger apenas os grandes grupos e depois pedir silêncio a quem sente os efeitos no bolso e na rua.

O discurso que ataca o turista barato costuma esconder uma ideia feia: quem não gasta muito não merece estar aqui. Isso não é estratégia económica. É arrogância. E, muitas vezes, é só o nervosismo de quem vê o lucro escapar das mãos. Os grandes operadores preferem um sistema fechado, onde o dinheiro entra e fica preso. Os pequenos precisam de um turismo que se espalhe e chegue a mais gente. É aí que está a diferença.

A Madeira não precisa de mais insultos nem de mais teatro moral. Precisa de planeamento, limite, justiça e coragem para dizer o essencial: o problema não é o turista que paga a sua viagem. O problema é o modelo que transforma a ilha num negócio para poucos e numa conta difícil para muitos. E isso tem de acabar.

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