Advogados no Porto Santo para dois dias de reflexão à beira-mar, que belo sítio para pensar na Justiça
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Porque há uma realidade jurídica que não vai precisar de pontes para ser encontrada: a de quem vive na Madeira, precisa de um advogado, e descobre, depressa demais, como funciona o sistema.
Não é um segredo. É um segredo de polichinelo, que toda a gente conhece e ninguém diz em voz alta, porque na Madeira dizer em voz alta tem consequências e o silêncio é um investimento de longo prazo.
Mas digamo-lo na mesma.
A advocacia insular tem um problema que não se resolve em dois dias no Porto Santo com vista para o mar e programa social incluído. Tem um problema que não se resolve com simpósios, com declarações de intenções, com fotografias de grupo sorridentes que amanhã estarão nas redes sociais com hashtags sobre justiça e comunidade.
O problema chama-se compadrio. E na Madeira, o compadrio não é um defeito do sistema, é a arquitectura do sistema.
Estudaram anos. Memorizaram códigos. Juraram defender a justiça com uma solenidade que impressiona. E depois chegaram à ilha e perceberam, ou já sabiam, que em famílias certas aprende-se cedo, que a justiça aqui tem endereço, tem apelido, tem banco na missa do domingo e mesa cativa no restaurante certo.
O advogado conhece o juiz. O juiz conhece o político. O político conhece o bispo. O bispo abençoa tudo. O jornal fotografa a bênção. E o círculo fecha-se com a elegância silenciosa de quem nunca precisou de explicar nada a ninguém.
Entretanto, o cidadão comum, aquele que não tem apelido, nem mesa cativa, nem lugar no convite para o Porto Santo, esse cidadão chega ao escritório, conta o seu problema, paga a consulta, e recebe um conselho que soa a justiça mas cheira a conveniência.
Não estamos a falar de todos. Claro que não. Existem advogados na Madeira que exercem a profissão com integridade, que dormem bem à noite, que acreditam genuinamente no que fazem. A esses, este texto não diz respeito — e eles próprios sabem que não diz respeito.
Mas esses mesmos sabem também, porque não são ingénuos, o que se passa à sua volta. Sabem quem são os colegas que prosperam não pelo mérito mas pela rede. Sabem quais os processos que avançam depressa e quais os que adormecem. Sabem ler o mapa não escrito do poder nesta ilha pequena onde toda a gente se conhece e o conhecimento é simultaneamente uma proteção e uma prisão.
E vão ao Porto Santo na mesma.
Porque construir pontes é mais confortável do que demolir muros.
Que o encontro corra bem. Que o sol apareça. Que o buffet esteja à altura.
E quando regressarem se lembrem de que a justiça não vive em hotéis com vista para o mar.
Vive, teimosamente, nas pessoas que continuam a acreditar nela.
Apesar de tudo.
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