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Precisamos de um novo "João Carlos Abreu"

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Precisamos de alguém aberto ao mundo, que saiba escolher para a nossa pequenez, alguém que estime a Madeira e não o seu umbigo.

E

nquanto vemos a beleza de outras festas da flor, do fim dos espetáculos pirotécnicos nalguns países, do show de drones em Viana do Castelo, percebemos que estamos parados e a destruir eventos, esgotados porque cansa ver balonas ou a extensão de eventos sem substância. Aposto que quando o turismo tiver alguém decente, toda esta herança maléfica vai lhe cair em cima.

É certo que vão esgotar tudo por incompetência, mas não vejo que da política atual saiam mérito e qualidade, será mais um vendido para deixar a Madeira para trás.

Estamos a cair no mesmo erro de 3 destinos.

Veneza, Itália
Veneza é o espelho do que acontece quando o poder político deixa o turismo correr sem rédeas. Focaram-se no turismo de massas (especialmente navios de cruzeiro gigantescos) e na extensão de eventos sem substância para lá do Carnaval. Os habitantes locais foram expulsos pelo custo de vida e pela habitação inacessível. A cidade perdeu a sua alma cultural genuína. Hoje as lojas de artesanato local foram substituídas por plástico e recordações baratas. Tornou-se uma "cidade-museu" sem vida própria, onde até para entrar no centro histórico agora querem cobrar bilhete. Como anda a fazer Eduardo Jesus, e com mercado negro.

Barcelona, Espanha.
Barcelona seguiu um modelo de "espetáculo e festa" contínua que acabou por exaurir o território. Teve promoção agressiva focada no volume de visitantes e em atrair eventos de massas, sem acautelar a pegada ecológica ou o equilíbrio social. O turismo de massas "abalroou o quotidiano" (exatamente como descreves no teu texto sobre a Madeira). O comércio tradicional faliu para dar lugar a cadeias internacionais e fast food. A saturação foi tanta que gerou movimentos de turismofobia agressivos por parte dos residentes, que sentem que a cidade já não é deles, mas sim dos fundos de investimento.

Bali, Indonésia
Bali era o destino idílico da cultura, da paz e da natureza. Cedeu à tentação do "turismo de instagram e de rooftops". O betão avançou sobre campos de arroz sagrados e a costa foi vendida a privados. Hoje, o destino enfrenta problemas gravíssimos de trânsito incomportável, gestão de lixo miserável e escassez de água para a população local. O "show-off" turístico substituiu a identidade cultural genuína por festas de luxo para estrangeiros, alienando os locais.

Encontra espelhos na Madeira?

O antigo Secretário do Turismo da Madeira percebia que o turismo só sobrevive se for culturalmente rico e diferenciador. A criação da Festa da Flor ou do Festival do Atlântico na altura não eram apenas cartazes para encher hotéis, eram manifestações de orgulho e estética madeirense.

Estamos como Veneza, Barcelona e Bali numa transição perigosa da "Era da Qualidade e Substância" para a "Era do Volume e do Negócio Fácil". Quando Viana do Castelo ou outros destinos avançam para espetáculos de drones e inovação sustentável, e a Madeira insiste em esticar eventos até à exaustão sem renovar o conceito, o destino envelhece e degrada-se. Eduardo Jesus é a herança maléfica de estoirar os recursos por incompetência e acabará sempre por rebentar nas mãos de quem vier a seguir.

Já não se aguenta o caos, a perda de identidade, a estagnação cultural, a insistência em fórmulas esgotadas (como os fogos de artifício, já não posso com balonas com elogios agendados nos jornais) e a massificação que destrói a qualidade de vida local, o nome técnico no turismo é "Turistificação" ou "Overtourism".

Não se pede os espetáculos soberbos dos chineses, mas que se comece com o passo em frente. Estamos a destruir tudo. As vacas magras estão no horizonte.

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