São Vicente, vem cá ver isto!
E
O Ratinho não tinha grande formação, mas tinha uma coisa que ninguém lhe tirava: teimosia. Estudou, estudou e estudou. Estudou tanto que até os livros pediram transferência. Era de poucos amigos, porque dizia ele que “os grandes líderes caminham sozinhos”. A verdade é que os outros ratos é que atravessavam a rua quando o viam chegar.
Um dia, por força da vontade e talvez por falha administrativa da escola, o Ratinho acabou a dar aulas no ensino secundário. Entrava na sala com ar importante, giz numa mão, queijo na outra, e dizia:
— Meninos, hoje vamos falar de disciplina, esforço e como subir na vida sem travões.
Só que o Ratinho confundia autoridade com abuso de confiança, com apalpadelas, com lambidelas, e houve queixas. Muitas queixas. Tantas que a direção da escola, que até era paciente, percebeu que aquilo já não era professor: era problema com horário completo – um lâmbuzio. Foi afastado. E bem afastado, que certas portas, quando se fecham, deviam até levar cadeado.
Mas o Ratinho não desistiu. Afinal, quem pedala em contrarrelógio também sabe pedalar contra a vergonha.
Tinha uma paixão antiga: queijo. Queijo fresco, queijo curado, queijo amanteigado, queijo de ovelha, queijo de cabra (loiras, morenas, ruivas, russas), queijo “ninguém sabe de onde veio mas cheira que se farta”. O Ratinho dizia que era gourmet. Os outros diziam que era vício.
E não era só queijo de comer. O Ratinho também gostava de perfumes com cheiro a queijo. Quando passava uma ratinha com aroma a “Gouda Nº 5”, ele perdia o juízo, o equilíbrio e às vezes metade da receita da seguradora.
Porque sim: o Ratinho tinha uma seguradora. Chamava-se Segura-Queijo, Lda., especializada em proteger bicicletas, bigodes e reputações frágeis. O problema é que entrava dinheiro por um lado e saía pelo outro, quase sempre atrás de aventuras, promessas, viagens para o Brasil e ratinhas exóticas com perfume a queijo derretido.
Casou-se com uma ratinha séria, paciente e desconfiada, que cedo percebeu que aquele casamento tinha mais furos do que os pneus dele nas provas de ciclismo. Quando o Ratinho perdia corridas, chegava a casa furioso. Quando ganhava, chegava vaidoso. Quando tinha ciúmes do rato cabeleireiro, chegava insuportável. Ou seja: chegava sempre mal. Chapadão para um lado, chapadão para o outro, saía a ratinha esposa para a casa de apoio à vítima.
A ratinha esposa, cansada de viver numa casa onde o amor vinha com rodas empenadas, acabou por perceber que merecia muito mais do que um campeão de bairro com cheiro a queijo e mania de imperador.
Entretanto, o Ratinho apaixonou-se por uma ratinha tropical, vinda do distante Reino do Queijil, onde, segundo ele, “o queijo cheira melhor e ninguém passa fome.
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