Há coisas que só acontecem no concelho do Funchal.
U ma delas é assistir ao renascer de um fenómeno urbano raro, a barraca ambulante que deixa de ser ambulante e decide instalar-se, com toda a dignidade de um monumento municipal, mesmo ali, à porta da Câmara.
O ex-vereador João Rodrigues deve ter achado que, depois de abandonar o mandato, ainda tinha direito a manter presença física no local. Não no gabinete, claro… mas na versão portátil do gabinete: a sua famosa barraca, agora promovida a “estabelecimento fixo de influência local”.
E há quem diga que ele montou aquilo ali porque é teimoso. Eu não acho. Eu acho é que é burro com convicção. Porque se a ideia era montar barraca, havia sítios mais apropriados. Um bairro de lata qualquer. As festas do Santo. Qualquer lugar onde o improviso passa despercebido. Mas não. Tinha de ser à porta da Câmara, para garantir visibilidade, impacto e, claro, o ar de decadência institucional que tanto aprecia.
E como se não bastasse a carpintaria improvisada encostada ao edifício público, ainda trouxe o staff completo. As funcionárias da barraca fazem agora parte da paisagem oficial, como se fossem uma extensão dos serviços municipais.
Depois admiram-se quando alguém comenta que “parece mal”. Parece mal? Não. É ridículo. É tão evidente que só não vê quem não quer. E ainda há quem se ofenda quando se diz que há abuso de espaço público, confusão visual e falta de noção.
Mas o que é que se esperava?
Que alguém que passou anos a confundir interesse público com palco pessoal agora ganhasse juízo? Claro que não. A barraca continua montada, literal e metaforicamente.
E se o município não põe ordem, qualquer dia ainda começam a vender hortaliças ali mesmo, em frente aos Paços do Concelho. Afinal, mercado improvisado por mercado improvisado…
No fim, a única conclusão possível é simples, há quem saia da Câmara, mas a Câmara nunca sai deles. E, pelos vistos, a barraca também não.
