Venezuelanos apeados


Não vão faltar aviões...

Os ditadores nunca têm culpa.

D epois dos alertas de risco no espaço aéreo da Venezuela (atividade militar), as agências reguladoras de aviação civil, como a FAA (Administração Federal de Aviação dos EUA), emitiram alertas (NOTAMs) aconselhando extrema cautela ou mesmo proibindo o sobrevoo do espaço aéreo venezuelano, devido a intensificação de exercícios militares e movimentação de forças na região, aumentando o risco de operações militares não anunciadas, mas também pelas interferências nas comunicações aeronáuticas, bloqueio de sinais de navegação e falhas no controlo de tráfego aéreo.

O problema é que a Venezuela já tinha pouca rotação de companhias aéreas, e as que voavam faziam-no por estreita ligação à população. A redução e, em alguns casos, a suspensão total dos voos de companhias aéreas internacionais para a Venezuela, é resultado de uma combinação de fatores complexos, principalmente ligados à crise económica, política e de segurança do país.

O principal problema histórico foi o controlo cambial imposto pelo governo. As companhias aéreas vendiam bilhetes em moeda local (bolívares), mas precisavam de dólares americanos para pagar custos operacionais (combustível, manutenção, leasing de aeronaves). O governo venezuelano monopolizava o acesso a dólares e reteve milhares de milhões de dólares devidos às companhias aéreas pela venda de bilhetes. Esta dívida acumulada impossibilitou as empresas de repatriarem os seus lucros, tornando as operações financeiramente insustentáveis. Foi assim que a TAP desistiu da rota.

Com a crise económica e a hiperinflação, a venda de bilhetes em bolívares, ou mesmo em dólares, tornou-se difícil ou com preços desajustados da realidade internacional. Não sendo suficiente, nos últimos anos, especialmente em períodos de maior tensão geopolítica, a segurança tornou-se um fator determinante. Com a Covid, pude constatar, só uma companhia se mantinha a voar para a Venezuela, voo que inclusivamente passava por cima da Madeira muitas vezes, da Turkish Airlines. Companhias assim devem ser acarinhadas, mas Nicolás Maduro nunca teve bom senso para com a população.

Depois dos alertas, muitas companhias aéreas, incluindo a TAP, GOL, Iberia, LATAM, Avianca e Turkish, decidiram suspender os voos, alegando que os seus padrões de segurança internos e as avaliações dos reguladores impediam a continuação das operações. Considero estas companhias o mínimo dos mínimos para um país se considerar acessível. Num gesto de demonstração de força num indivíduo inseguro, Nicolás Maduro revogou as licenças de operação de várias companhias que haviam suspendido os voos devido aos alertas de segurança, acusando-as de se unirem a "actos de terrorismo" promovidos pelos EUA. Esta decisão soberana do INAC (Instituto Nacional de Aeronáutica Civil) venezuelano cimenta a impossibilidade de regresso destas transportadoras, pelo menos no imediato. A estupidez de Nicolás Maduro gerou já a primeira vitória de Trump. Não sabemos que Venezuela vamos ter num futuro próximo, mas se Nicolás Maduro se mantém creio que as companhias terão outras apostas menos arriscadas...

O isolamento aéreo da Venezuela começou por questões económicas (dívidas cambiais) e foi agravado por um clima de instabilidade política e alertas de segurança recentes, mas só Nicolás Maduro matou as ligações aéreas com a Venezuela. E lá dança ele feito um ridículo. Para já será um Natal apeado e de expectativa... mas podem ter a sorte de um indivíduo como o Trump hesitar muitas vezes.

A Venezuela entretanto decidiu aumentar os voos entre Caracas e Moscovo, quem vai para Moscovo? Só se for um fugitivo...