E ntretanto, fica aqui a delícia: a CNN Portugal noticiou que, dos 58 deputados eleitos pelo Chega, 23 já se cruzaram com a justiça ou estiveram envolvidos em polémicas — um facto que alimenta a gargalhada amarga dos que se proclamam “anti-sistema” e “caçadores de corruptos”.
Assistimos a uma coreografia admirável, eleitores que nas regionais, votaram no poder local do PPD-Madeira (o tal “imperador regional”), agora nas presidenciais aplaudem o candidato que promete moralizar o país. É como contratar o eletricista para limpar o lago, boas intenções, resultados improváveis. A confusão entre cargos, Presidente do Governo Regional versus Presidente da República, não impediu a plateia de aplaudir. A piada é básica: querem expulsar o chefe do governo regional votando num juiz ...
Se a política fosse um restaurante, muitos mudaram de menu, ex-militantes do PPD, dispensados dos tachos, encontraram no Chega uma nova e saborosa ementa populista. A hipocrisia tem sempre um aroma culinário, cheira a fritos de conveniência: quem denunciava a corrupção quando tinha tacho, agora veste a pele de insurgente porque o tacho foi-lhe retirado. Nada de novo; apenas a reciclagem perfeita de permanências políticas.
E para os que ainda acreditam no “anti-sistema” sem conferir a linha de antecedentes: um link, uma leitura curta e a realidade desmaia a retórica. Quando a indignação é seletiva, torna-se espectáculo; quando é pessoal, torna-se negócio; quando é política, toma conta do balcão do café. Resultado: a Madeira continua a ser um case study de teatro político, onde os protagonistas trocam de figurinos mas repetem as mesmas cenas.
Exemplo rápido, votar em Lisboa para mudar a política do Funchal é como assobiar para o telemóvel e reclamar porque o vizinho não ouve, espectacular, inútil e ligeiramente absurdo. Riem-se, trocam impressões e continuam a gerir a política como quem troca cromos.
Moral da história (curta e prática), se quer expulsar alguém do poder local, não vote numa capa de juiz nacional, vá ao autarca e peça reembolso. E se quiser rir, leia a notícia e beba o café, o espetáculo é gratuito, a hipocrisia é paga à hora.
