Isto não é um voto de protesto.


Por: um cidadão da República

A Presidência da República não é um acto de vingança nem uma plataforma de espectáculo. É a mais alta garantia constitucional de estabilidade, contenção e continuidade democrática. A primeira volta revelou um país cansado e irritado; essa raiva merece ser ouvida, mas não pode transformar-se em instrumento de governo.

A frustração que alimenta votos de protesto exprime pressões económicas reais, desigualdades persistentes e a sensação legítima de que a política falhou com muitos cidadãos. Reconhecer isso é urgente. Estigmatizar eleitores é contraproducente; compreender as causas estruturais é obrigatório. Longa dependência económica, mobilidade social reduzida, redes clientelistas e confiança institucional fragilizada não são defeitos morais, são falências públicas que exigem respostas políticas sérias.

Mas a Presidência não pode ser a válvula de escape do ressentimento. Deve funcionar como contrapeso constitucional. Um Chefe de Estado não deve inflamar tensões; deve acalmá-las. O seu papel é de contenção, não de provocação; de representação, não de espetacularização. Discernimento, temperamento e respeito pelas instituições são critérios, não preferências partidárias.

A escolha a fazer no dia 8 de fevereiro é simples na sua gravidade, reforçar a Constituição ou testar os seus limites. Não se trata de censurar a expressão democrática, trata-se de preservar o quadro que a torna possível. A democracia sobrevive pela seriedade, não pelo ruído. A calma não é fraqueza; é responsabilidade.

A Madeira não é um problema à parte nem um bode expiatório. É parte integrante da República, com história, desafios e expectativas legítimas. O recente resultado eleitoral ali deve ser lido como sinal de alerta, não como modelo nem como estigma. O que brota numa ilha pode germinar em qualquer território quando instituições deixam de proteger oportunidades e justiça.

Num momento de tensão, a Presidência adquire ainda mais importância, não como megafone, mas como garante. Deve reafirmar a confiança pública, fortalecer instituições, proteger minorias e promover políticas que ataquem as causas da insatisfação, emprego digno, mobilidade social, transparência e equidade. Exigir respeito pelas regras não é autoritarismo; é cuidado institucional.

A República pede contenção, competência e dignidade no topo. Quem procura agitação permanente oferece teatro quando o país precisa de cura. O voto não é exibição; é responsabilidade. No dia 8 de fevereiro, a dignidade importa.