A destruição dos valores



O valor real das instituições e dos prémios é sacrificado no altar do espetáculo político.


Falta à tropa mas veste o camuflado.

Q ue tempos, uns compram medalhas, outros roubam símbolos, e ainda outros oferecem indevidamente o que conquistaram. Vivemos tempos de uma estranha mutação política, onde a substância das instituições e o rigor dos valores ancestrais parecem dissolver-se perante a urgência da imagem. O que outrora era sagrado, seja um uniforme militar ou uma distinção da paz, tornou-se, na mão de certos líderes, um mero adereço de palco, um acessório descartável numa estratégia de marketing que ignora a história e a lei.

O exemplo recente em Portugal é sintomático. André Ventura, líder do Chega, ao vestir um camuflado militar oferecido por antigos combatentes, não vestiu apenas uma peça de roupa; apropriou-se de um símbolo que não lhe pertence por direito de serviço. A reação do Almirante Gouveia e Melo foi de uma clareza cortante: "O dr. André Ventura nunca foi sequer ao serviço militar obrigatório".

Deixa-me mesmo muito mal disposto (...). O dr. André Ventura nunca foi sequer ao serviço militar obrigatório. Deve ter cuidado com os símbolos que usa. Os uniformes são para quem usou e serviu a pátria com uniforme. É um desrespeito", afirma, acrescentando que "há coisas que têm limites. (Gouveia e Melo)

A farda não é um figurino de teatro. Representa o sacrifício, o cumprimento do dever e a submissão à hierarquia do Estado. Quando um líder político, que ambiciona ser Chefe de Estado, mas que parece ignorar que o poder executivo reside no Governo e não na Presidência, usa o uniforme como arma eleitoral, ele desrespeita quem o suou. É a quebra do valor da honra militar em favor do populismo estético. Como bem disse o Almirante: "Há coisas que têm limites".

O Nobel como objeto de troca

Atravessando o Atlântico, encontramos um cenário de igual desvirtuamento. María Corina Machado, figura central da oposição venezuelana, tentou transformar a Medalha do Nobel da Paz numa espécie de moeda de troca diplomática ou presente de cortesia para Donald Trump.

María Corina Machado revelou que ofereceu a medalha do Nobel a Donald Trump, no encontro entre ambos esta quinta-feira na Casa Branca. (...) O Instituto Nobel da Noruega já tinha esclarecido este mês que María Corina Machado não podia doar o Nobel da Paz ao Presidente dos Estados Unidos, como afirmou ser sua intenção, nem a qualquer outra pessoa. "Uma vez anunciado, o Prémio Nobel da Paz não pode ser revogado, transferido ou partilhado com terceiros", afirmou o instituto num breve comunicado em 10 de janeiro.

A doação do prémio, mesmo que seja a medalha, ignora a natureza intrínseca da distinção. O Instituto Nobel foi forçado a recordar o óbvio: o prémio é irrevogável, intransferível e pessoal. Não se oferece um Nobel como quem oferece uma gravata num encontro na Casa Branca. Ao tentar fazê-lo, Corina Machado esvazia o valor moral do reconhecimento, tratando uma das mais altas distinções da humanidade como um trunfo político de ocasião. Escreveu-se direito por linhas tortas, não tem categoria para chefe de Estado porque não entende o básico.

Estes dois episódios, embora distintos geograficamente, partilham a mesma raiz, eles "dessacralizam" os símbolos. No primeiro, o uniforme é usado por quem nunca serviu, no segundo, a paz é transacionada por quem não pode transferi-la.

Esta sociedade onde nada tem valor permanente afunda-se. Se tudo pode ser vestido por qualquer um e tudo pode ser dado a quem se quer cativar, então os símbolos deixam de ser marcos de mérito para passarem a ser apenas ruído visual. Nesta era de quebra de valores, o "parecer" derrotou o "ser", e o respeito pelas instituições tornou-se uma nota de rodapé na busca incessante pelo clique, pelo aplauso e pelo poder.

Vivo triste neste tempo da ignorância atrevida. Vai custar caro à humanidade.