N esta terra onde os jornalistas almoçam com os deputados do PSD-M no Kampo e o jornalismo escolhe a dedo a profusão de gentes do PSD-M nas mais vastas áreas sociais e económicas para dar a catequese do partido, um vinho destes está condenado ao sucesso. A ideia do vinho de altar está certíssima, ainda por cima com um jornalismo que leva a chancela da seriedade daqueles que estudaram para padres, mas ficaram-se pelos casamentos com o sistema, com os deputados e demais garantes da estabilidade financeira familiar.
O bispo já dava a bênção, a imunidade religiosa aos santos e santos desta terra, agora oferece o sangue de Cristo, um pouco de cada madeirense inerte, que não vê o seu desterro, com a cruz que leva. Só falta a Fábrica de Santo António se lembrar de uma broa ou bolacha alva para servir de corpo de Cristo.
Como veem, o novo vinho de missa da Madeira promete ser um verdadeiro sucesso e entrar no superlativo do sistema, o melhor vinho e altar do mundo… como o pagão já toma conta das missas, talvez seja melhor dizer nos altares, o que com o soundbite do padre Guilherme como DJ, só lhe faltará a porrada da Rua das Fontes.
Fontes muito bem-humoradas garantem que será um dos mais vendidos para os banquetes da Quinta Vigia, onde a fé é posta à prova à mesa e a imunidade se fortalece ao copo. Um beato fugido da Justiça ainda fará a oração do Sangue e Corpo de Cristo e mais ninguém se atreverá a uma conversa subliminar. Diz-se, inclusive, que este vinho não consagra o corpo de Cristo, mas beatifica o sistema, nervoso, político e, em doses generosas, até o digestivo. Cada encontro com o momento do perdão à alma do pecador e de quem, eleições após eleições, permite que o pecado prossiga. Acontece porque peca-se sabendo que há perdão e o vinho de altar ajudará a inebriar a consciência.
Trata-se, afinal, de um vinho moderno, não é da Igreja, é do sistema. Não absolve pecados, mas facilita consensos; não perdoa culpas, mas ajuda a esquecê-las depois da sobremesa. Ideal para jantares institucionais onde se multiplica o peixe, o pão… e sobretudo as desculpas. Cai bem quando se usa a Quinta Vigia para assuntos de partido, desconversa-se à volta do trago. Dizem que não será um pouco no copo, mas um atrás do outro desde a copa.
Reza a lenda que um cálice antes do discurso aumenta a eloquência, dois melhoram a memória seletiva e três transformam qualquer decisão difícil num “vamos analisar com calma” ou "não é bem assim". Milagres contemporâneos, devidamente certificados.
Há quem diga que é um vinho ecuménico, serve para a missa, para o brinde, para o ajuste fino do orçamento e do direto, até para ungir inaugurações que não levam a lado nenhum. Não faz transubstanciação, mas faz transições ideológicas, estratégicas e, em certos casos, etílicas.
É um vinho versátil, regionalista e não patriótico, altamente institucional. Se cura almas é discutível, mas que fortalece a imunidade política, isso sim, já começa a ser artigo de fé. Era bom que viesse com a imagem do nosso bispo no rótulo, sempre garante um lugar mais acima no sistema.
Como todo produto enganador, terá direito a desconto, depois do respetivo aumento, o que fará o preço ficar acima do verdadeiro preço, e porque é religioso, se a ARAE pouco toca nos supermercados que bloqueiam o LIDL, será uma estante a passar ao lado, porque a ARAE é do sistema e a Igreja é importante no sistema. Para compensar era atacar a sidra caseira...
Que se inaugure mais uma Igreja com o dinheiro do Estado para brindar com este vinho, se podemos com campos de golfe... porque não.
Hip, à deles🍷😇

