Subsídio de Mobilidade: a insensibilidade social do PSD está de regresso.


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Nota: não esquecer o parceiro CDS!

H á algo de profundamente dissonante quando se ouve o PSD, em particular quando incorpora o PSD Madeira, falar em moral contributiva, cumprimento de regras e exclusão de quem não tem a situação regularizada. Não porque essas regras sejam ilegítimas em abstrato, mas porque vêm de quem deixou atrás de si um rasto de dívidas públicas coladas ao teto, atrasos sistemáticos de pagamento e um passivo que chegou aos 6 000 milhões de euros. Isso não foi um detalhe técnico: foi um desastre económico com vítimas concretas.

Foram empresários arruinados, empresas fechadas, património perdido, famílias empurradas para o incumprimento porque o Governo Regional foi, durante demasiado tempo, caloteiro. Quem forneceu bens e serviços ao Estado financiou-o à força, sem juros, sem garantias e sem calendário. E agora essas mesmas pessoas são convidadas a aceitar lições de virtude fiscal como se a história tivesse começado ontem.

A ferida aprofunda-se quando se recordam as dívidas à Segurança Social que caducaram para alguns empresários bem colocados, os perdões seletivos, as prescrições convenientes. Ou quando se pensa nos meses de espera pelo reembolso de um exame, de uma consulta, de um dinheiro que já saiu do bolso de quem menos tem margem. O Estado foi lento a pagar, rápido a cobrar, e seletivo a perdoar. É esta assimetria que torna o discurso atual insuportável.

Não se trata de rejeitar a exigência de regras. Trata-se de perguntar quem tem autoridade moral para as brandir. Quando um partido com este passado fala como cobrador moral, sem contexto social, sem memória institucional e sem autocrítica, o resultado não é pedagogia: é ressentimento. A exigência deixa de ser vista como neutral e passa a soar a castigo.

Há quanto tempo estão todos vocês que me leem à espera do reembolso das consultas e exames? Não é só passado, é presente! As AAPs do PSD são caloteiras.

A matriz não é nova. Vem de Passos Coelho, vai para lá da Troika e sobrevive nos discípulos. Luís Montenegro não precisa de invocar a austeridade para reativar essa herança: basta aplicar critérios rígidos onde devia haver sensibilidade, nomeadamente em áreas estruturais como a mobilidade. Numa região ultraperiférica, transformar o acesso à mobilidade num instrumento disciplinar é criar exclusão onde devia haver coesão. Ali não há alternativas, não há escolhas livres, não há rede de segurança.

Depois admiram-se. Admira-se o crescimento da extrema-direita, como se tivesse surgido do nada. Mas ela não cria este ressentimento, recolhe-o. Alimenta-se da sensação de injustiça, da memória longa de quem perdeu tudo enquanto outros escaparam ilesos, da linguagem fria de quem governa como credor e fala como juiz.

Não se pode falar de moral contributiva sem falar de moral institucional. Não se pode exigir confiança a quem foi forçado a financiar o Estado contra a sua vontade. E não se pode fingir surpresa quando políticas sem empatia produzem respostas políticas radicais.

O problema não é o povo não perceber.

É o poder fingir que não se lembra.