Bom dia a todos e obrigado Madeira Opina pela oportunidade que me dão. Ano após ano ouço a mesma justificação, o que se torna mentira plena ao fim de de tantos anos. Quero ser honesto na minha análise, com prós e contras do porquê que isto acontece.
A Porto Santo Line afirma que não há navios disponíveis no mercado para substituir o seu ferry Lobo Marinho durante o período em que este vai a doca seca para manutenção, cerca de 5 semanas no início do ano. Enquanto isso, garantem transporte aéreo para residentes e a continuidade de transporte de mercadorias por outro tipo de navios. Isto repete-se ano após ano e é motivo de críticas políticas e sociais, por exemplo do JPP que acusa o Governo de não cumprir a promessa de garantir um barco alternativo.
Mas é verdade que “não há navios no mercado”? Mentira, existe mercado internacional de ferries existe, mas não acessível a quem não quer planificar e é por isso que passa a mentira do Sousa ao fim de tantos anos. Não há qualquer vontade e repetem a justificação. O Sousa quer realizar dinheiro, não servir o Porto Santo e tem a ajuda do Governo Regional que faz ajuste direto. Viram concurso internacional?
No setor marítimo global existe um mercado onde podem ser fretados “ferries” ou navios roll-on/roll-off para serviços temporários, basta ver os exemplos de operadores como a Caledonian MacBrayne ou DFDS. Isto significa que é tecnicamente possível "arrendar" um navio para substituir outro temporariamente, como acontece noutros países e operadores, por exemplo, a CalMac (Escócia) para suprir falta de navio e manter serviço.
Não é correto afirmar inexistência de navio no mundo, o que pode não existir é navio adequado, disponível e economicamente viável para este tipo de travessia específica como a Madeira–Porto Santo. Mas, seriamos exigentes no "modelo" recortado a custo e medida?
Antes de avançarmos mais convém ter presente que somos nós que nos metemos no problema e na boca do lobo! A linha Madeira–Porto Santo está concessionada há décadas a uma empresa com um único navio em operação (o Lobo Marinho). Aqui nasce a inércia clara de querer servir o Porto Santo durante 12 meses. A situação cria duas condições:
Restringe a concorrência no transporte marítimo regular entre estas ilhas.
- Gera uma dependência total desse único navio, se ele sai de serviço, não há outra embarcação própria na frota para substituir.
- Sem um segundo navio no contrato ou frota disponível, a única alternativa seria trazer um navio de fora, o que envolve altos custos logísticos e operacionais.
É uma prática que existe no mercado marítimo mundial, há empresas alugam/fretam navios apropriados durante períodos de manutenção ou picos sazonais para manter o serviço. Só falha por falta de programação e então invocam falhar por:
- Custos muito altos para um percurso relativamente curto e inter-ilhas;
- Pouca oferta de navios compatíveis no Atlântico próximo;
- Complexidade de certificação e segurança para passageiros.
Em teoria é possível, mas precisa de planeamento financeiro e contrato com operadores internacionais. Se nunca começam, nunca têm, décadas não foram tempo suficiente? Não, porque o Sousa é um ganancioso e não quer saber do serviço ao Porto Santo, não tem responsabilidade e é defendido pelo próprio Governo Regional. Basta ver como faz concessão sem concurso público internacional, por ventura com outros concorrentes com mais de um navio, com operadores que até podem estar aqui ao lado nas Canárias que também levam navios a doca seca.
As alternativas modais/balancing modal shift, enquanto o navio está fora são o aumento do transporte aéreo com quantidade e a preços controlados durante a manutenção e utilização de porta-contentores. Este tipo de solução não é perfeito, mas pode reduzir um impacto social e logístico, descarado era não haver nada, é uma solução de prata da casa (porta-contentores) e o limite do número de voos e capacidade do avião. Não a capacidade do ferry.
Quero fazer um primeiro balanço para poder avançar noutra área, não é verdade absoluta que não há navios no mercado mundial, navios, catamarans e ferries podem ser alugados ou fretados internacionalmente para substituir um navio em manutenção. O que a Porto Santo Line diz é mais uma realidade prática e económica! Para não gastar dinheiro nem planificar porque há o conforto do Governo Regional permitir o abuso. Dizem que não aparecem navios que sejam adequados, disponíveis e economicamente viáveis para a travessia Madeira–Porto Santo no mercado naquele momento. Isto é uma combinação de:
- Mercado restrito de navios compatíveis;
- Custos altos de charter, tripulação, certificação;
- Condições técnicas da rota específica;
- Planeamento prévio insuficiente (isto repete-se ano após ano).
Portanto, uma solução tecnicamente existe no mercado global de ferries, mas não está a ser aproveitada ou não é economicamente justificável no quadro atual sem uma decisão estratégica do Governo, operador ou modelo contratual.
Avancemos...
O que passo a fazer é pensar num plano estratégico resumido, realista e aplicável, pensado para não interromper o serviço marítimo Madeira–Porto Santo durante a doca seca do ferry, sem fantasia técnica mas também sem aceitar o “não há solução” como dogma.
A continuidade mínima do serviço marítimo durante a doca seca anual (5 semanas), evitando o isolamento da ilha e a repetição anual do mesmo problema político, social e económico deve reconhecer um princípio-base esta ligação é um serviço público essencial, não apenas um negócio turístico, logo:
- Não pode depender de um único navio;
- Não pode ficar refém do “mercado não tem barcos” (é uma vergonha um problema sem resolução no seio do Povo Superior);
- Exige planeamento plurianual, não gestão reativa.
O problema não é “não haver navios”, é não os reservar com antecedência!
- Antecedência mínima: 1 a 2 anos
- Janela fixa anual (doca seca previsível)
- Ferries Ro-Pax médios (400–700 pax)
- Navios fora da época alta noutros mercados (Báltico, Mediterrâneo, Mar do Norte)
- O risco não é só da empresa
- O Governo assume parte do custo como obrigação de serviço público
- Acaba o jogo do empurra anual
- Compra conjunta Governo + operador
- Leasing de longo prazo
- Navio mais simples, não turístico, focado em residentes, carga ligeira, viagens mínimas. Não precisa de ser um “Lobo Marinho 2.0”, tem de ser funcional e disponível.
- 2–3 viagens marítimas semanais (não diárias)
- Preços regulados
- Lugares garantidos para residentes
- Comunicação clara e antecipada
- Datas da doca seca
- Solução escolhida
- Custos
- Responsável político identificado
- Não há planeamento
- Não há obrigação contratual
- Não há decisão política de assumir custos
