O congresso do PS-M chegou às notícias por falta de quórum e a conclusão foi imediata: sinal de fraqueza. É uma leitura apressada. A ausência numa votação pode ter múltiplas causas, cansaço, agendas incompatíveis, motivos pessoais ou até cálculo táctico. Transformar ausência em traição, sem prova, é preguiça analítica.
O texto acusatório recorre a ironia pesada. Chama “aberração” ao congresso e compara-o a reuniões de condomínio. Funciona nas redes e na bancada, mas não substitui factos. Quantos delegados faltaram? Foi um número marginal ou relevante? Houve aviso prévio? Sem estes dados, a acusação perde peso e ganha ruído.
Há também um salto lógico evidente. Parte-se de um episódio concreto para decretar uma falência estrutural: da falta de quórum passa-se à “não alternância” e à “incapacidade de governar”. Não há relação necessária. Um momento mal organizado pode revelar fragilidades; não prova, por si só, incapacidade governativa. É hipótese, não demonstração.
A coerência volta a falhar quando o mesmo texto afirma que o sucedido é inédito e logo admite que adiamentos acontecem noutros congressos. Ou é exceção grave ou é prática conhecida. As duas narrativas não coexistem sem contradição.
Falta ainda contexto causal. Quem beneficia politicamente do episódio? O PSD, a JPP, o Chega? Ou apenas a comunicação social? Apontar lucros políticos exige evidência, não insinuação. Manchetes não são provas.
Se a crítica quiser ser útil, as perguntas são simples: quantos faltaram e porquê? Houve falha logística? Existiu boicote organizado? Que impacto real terá isto nas eleições? Sem respostas, o veredicto “é mais do mesmo” soa vazio.
Ridicularizar o lema “Preparados para Governar” também não resolve nada. Zombar de um slogan
não responde às propostas nem melhora a organização. Criticar sem propor é manter o problema intacto.
Pequenas crises podem ser pedagógicas. Expõem fragilidades e criam espaço para correção. Se há vontade de renovar, este é o momento para transparência, melhoria de processos e escuta interna. Se a intenção é destruir, apresentem-se provas.
Desde quando um atraso virou sentença final? A democracia não é um reality show. Ideias não se medem por cadeiras vazias num instante, mas pela capacidade de corrigir, decidir e aprender. Menos histeria, mais razão. A política, e a democracia, agradecem.
