Olá a todos, viva a plataforma.
Acabo de folhear o Diário de Notícias, tem duas páginas tenebrosas. Pergunto quem vai ler e interpretar? Acho que pouca gente. Não é verdade que o DN não dê notícias incômodas, contudo vêm maquilhadas de sucesso, como o PIB do Albuquerque. Envio um grupo de notícias em anexo. O quadro que julgávamos preocupante passa a ser claramente obsceno.
Já não estamos apenas a falar de inflação na hotelaria. Estamos a falar de um sistema económico coerente na sua crueldade: salários baixos, habitação inflacionada, rendas em alta, rentabilidade garantida para quem compra para arrendar e esforço impossível para quem trabalha. Tudo encaixa. Tudo funciona. Só não funciona para os madeirenses.
Enquanto a hotelaria vê os preços dispararem quase três vezes mais do que no resto do país, a Madeira lidera o “esforço” para comprar casa. O eufemismo é brutal, esforço significa sacrificar mais de metade do rendimento apenas para ter um teto. Não para viver bem. Não para criar família. Apenas para não ser expulso. Ao mesmo tempo, o Funchal transforma-se num produto financeiro, comprar para arrendar é altamente rentável, não para quem mora, mas para quem investe. A cidade deixa de ser um espaço social e passa a ser um ativo de rendimento.
Este modelo económico não é neutro nem inevitável. É uma escolha política e económica que trata os trabalhadores como descartáveis e a população local como um incómodo logístico. Basta ver o que aconteceu depois da Covid, uma oportunidade para emigrar e os hoteleiros não quiseram saber e trouxeram a imigração que alterou completamente a composição da sociedade para bem pior. O turismo não quer saber se os seus empregados conseguem viver onde trabalham. Não quer saber se os jovens madeirenses adiam indefinidamente ter filhos porque não conseguem pagar uma casa. Não quer saber se a escola, a creche, a vida comunitária desaparecem, desde que os quartos estejam cheios e os lucros assegurados.
O resultado é um Funchal progressivamente desfigurado, menos bairros, zonas habitacionais madeirenses; é de mais hotéis, menos vizinhos, mais hóspedes, menos vida, mais consumo. Uma cidade onde quem serve não mora e quem mora não consegue viver. Uma ilha onde o futuro é hipotecado para garantir a rentabilidade no presente. Todos a olhar para o umbigo. O madeirense é calmo e pacato, eu não acredito que estão a importar só lucro, mas confusões... que já vão aparecendo (violência).
É assim que a palavra “pornográfico” deixa de ser retórica. Isto sim é pornografia, a discrepância entre lucros e salários. É pornográfica a naturalização da expulsão social. É pornográfica a tranquilidade com que se aceita um modelo que impossibilita a reprodução social de uma população inteira. Sem salários dignos não há filhos. Sem filhos não há continuidade. Isto não é apenas economia, é demografia, é cultura, é sobrevivência. A maioria dos madeirenses entendem o que estou a dizer?
Se este caminho continuar, a Madeira não será apenas um destino turístico de sucesso. Será uma ilha vazia de futuro, habitada temporariamente por quem pode pagar e permanentemente por quem não tem alternativa. Um território onde os madeirenses deixam de nascer, deixam de ficar e, lentamente, deixam de contar.
A previsão demográfica vai piorar em relação os estudos e estimativas.
Nota: gostei deste título, disse tudo: "Já te expulsaram da serra e vão te pôr a andar do Funchal." (link)
