Haja fé e as coisas acontecem


A Segurança Social da Madeira entrou em 2026 com uma estratégia nova. Há quem jure que isto foi importado directamente do manual de instruções da caridade cristã, com prefácio e notas de rodapé “à moda Opus Dei”. É confuso, sim. Mas também é fácil de desmontar, como um móvel do IKEA: parece simples até se perceber que faltam parafusos e sobra sempre uma peça.

A ideia central é viver o dia a dia com fé, foco na santificação do trabalho e aquele sorriso de quem está a sofrer mas quer parecer virtuoso. Junta-se a isto a misericórdia, mexe-se com uma colher de pau e… voilá: a receita perfeita para poupar na despesa, inventar dinâmicas laborais “cooperativas” e baptizar tudo como se fosse um congresso de inovação. Chama-se “team building”. Em português corrente: “Haja fé e as coisas acontecem”. E acontecem mesmo, especialmente quando alguém decide que é melhor acontecerem à custa dos mesmos de sempre.

Em Maio, saíram de cena a famigerada Dra. Micaela Freitas e a Professora Ana Sousa, e entraram para comandar os destinos da Segurança Social da Madeira e arredores a Dra. Paula Margarido e a Dra. Nivalda. Com elas, veio muita gente, ficou outra tanta… e, como é tradição regional, alguns problemas fizeram questão de manter residência permanente, com morada fiscal e tudo.

A contratação pública, por exemplo, perdeu um grande homem para a reforma e ganhou um novo desafio: um vazio do tamanho de uma catedral e uma incompetência tão transversal que no dia 31 de Dezembro já há quem diga que em vez de 12 passas, os trabalhadores levaram 13. A extra foi para pedir um desejo especial: haver pelo menos papel higiénico no serviço, porque a fé é muita, mas a dignidade também precisa de logística.

Chega o dia 2 e, milagre, o primeiro desejo é atendido: não ir trabalhar e ficar no conforto do lar. Aleluia. Só que a realidade, essa devota do estalo, não falha. No primeiro dia útil a sério, cai a boa nova, vinda dos grandes arquitectos da estratégia laboral: acabou o serviço de higiene ambiental, vulgo limpeza. Agora são os próprios trabalhadores que, além das suas funções, se vão organizar por turnos para recolher lixo, limpar corredores, atacar casas de banho e, com sorte, ainda polir os carros de serviço, aparar relva e talvez benzer o edifício ao fim do expediente. Tudo isto ao abrigo do novo conceito “Haja fé e as coisas acontecem”, pela santificação do trabalho e pela beatificação do orçamento.

E atenção: isto não é “mais trabalho”. Isto é “cocriação para a inovação social”. Os instrumentos? Os trabalhadores. A narrativa? Um poema: desde que os lares passaram para administração privada, a Segurança Social reintegrou centenas de funcionários sem destino certo, mas com presença obrigatória, como se fossem peças de museu que não se podem emprestar. Agora estão todos unidos num objectivo superior: fazer o que lhes compete e, pelo meio, passar uma esfregona num corredor e recolher papelada dos caixotes do lixo com o cuidado de quem está a manusear documentos sagrados. A ideia piloto parece estar a dar frutos: já há outros serviços regionais a olhar para isto com aquele brilho nos olhos típico de quem pensa “isto dava uma poupança linda” e começa a ensaiar o refrão do “Haja fé e as coisas acontecem”.

Mas não se iludam com o romantismo do detergente. Nestas coisas há sempre papéis que vão para o lixo e, surpresa, há papéis que guardam segredos. E quando se cria uma brigada interna de recolha selectiva, também se cria, por arrasto, a secção informal de “auditoria recreativa”. Há quem se divirta a ler o que vai para a reciclagem e, a partir daí, os segredos começam a circular pelos corredores em modo “boca pequena”, que é como as verdades mais perigosas gostam de viajar.

Resultado: já há cantigas, já há rimas, já há grupinhos a sair das casas de banho a arrastar sacos do lixo e a cantarolar historietas, olhando para o palco do auditório como quem sonha montar um musical em estilo revista dos anos 70. E, convenhamos, isso sim seria um serviço público com retorno. Os arranjos musicais ficariam, claro, a cargo do Padre Tony e da sua banda das missas do parto: um coro de igreja, uma bateria de sarcasmo e a adaptação dos segredos à sátira laboral. A única coisa que faltava era o cartaz: “Grande estreia. Bilhetes grátis. Tragam luvas.”

Conclusão: vem aí um novo modelo laboral para a Região. De manhã, contabilidade. À tarde, esfregona e detergente. Porque nada liberta mais o espírito do que o trabalho multifuncional quando o multifuncional é obrigatório e a única escolha é entre vassoura e resignação.

Quem está completamente alheio a tudo isto? Os que estão em teletrabalho desde 2020. Esses vivem num universo paralelo onde “higiene ambiental” ainda é uma coisa que existe, e onde “Haja fé e as coisas acontecem” é só uma frase bonita, não um plano de operações.