Presos políticos ou políticos à procura de palco?


A situação da Venezuela está longe, muito longe, de melhorar. O país continua refém de interesses externos e de uma tragédia interna que parece não ter fim. De um lado, Donald Trump volta a insinuar-se, como quem não quer a coisa, com discursos sobre “liberdade” que cheiram mais a petróleo venezuelano do que a direitos humanos. Depois da alegada incursão do passado dia 3 de janeiro, fica a sensação de que, mais uma vez, a Venezuela é vista como um poço de recursos e não como um país com gente lá dentro.

Do outro lado, o chavismo continua firme na sua especialidade, mandar, reprimir e fingir normalidade. Agora através de Delcy Rodríguez, que numa ironia histórica digna de manual político acaba por expor Nicolás Maduro a jogos internacionais que o próprio regime dizia combater. Anti-imperialismo no discurso, sobrevivência no poder na prática.

Mas no meio deste tabuleiro geopolítico, há um drama muito maior e muito mais ignorado, os presos políticos. Mais de mil, segundo várias denúncias, muitos deles em condições desumanas, sujeitos a tortura, isolamento e esquecimento. Entre eles, existem alegadamente cinco presos políticos luso-venezuelanos. Cinco pessoas. Cinco famílias. Cinco histórias que deveriam ser suficientes para mobilizar um Estado inteiro.

E aqui entra a tragicomédia madeirense.

Há quem fale dos presos políticos todos os dias, apareça nas capas dos jornais, seja presença constante na televisão e ande ao colo dos DDT da comunicação social regional. Falo, claro, do nosso “mira” da política madeirense, Carlos Fernandes, sempre pronto a discursar, a denunciar, a aparecer porque na política moderna, existir é aparecer.

Mas se uns aparecem demais, outros simplesmente desaparecem.

Temos membros do Governo Regional da Madeira que conseguem ser ainda piores: deixam a filha de um preso político à espera, sozinha, num corredor das Comunidades, enquanto o senhor diretor ninguém sabe onde anda. Um retrato perfeito da sensibilidade institucional: portas abertas para fotógrafos, corredores vazios para quem sofre.

O partido que costuma levar os votos dos “miras” em todas as eleições assiste a tudo isto com um governo que aparenta não se importar. Dias depois, Miguel Albuquerque tenta “emendar o capote”, como manda o manual, e anuncia que vai enviar uma carta ao ministro para ajudar os presos políticos. Carta essa que surge tarde, soa a remendo e cheira a dano controlado.

E como se não bastasse a atrapalhada, no mesmo período em que o Presidente do Governo Regional fala, o deputado dos “miras” reúne-se com Paulo Rangel, passando elegantemente por cima do próprio Presidente. Um gesto simbólico, claro, mas também pedagógico: talvez assim se aprenda que as pessoas e as causas não se tratam com desleixo.

No fim, o que temos é isto: políticos que usam uma tragédia para aparecer e políticos que revelam uma ausência total de sensibilidade humana. Uns exploram o sofrimento para ganhar palco, outros nem ao palco.