Um balanço após o caso dos Vereadores do CHEGA
na Câmara Municipal do Funchal
Oque veio a público em torno dos vereadores do CHEGA na Câmara Municipal do Funchal não pode ser tratado como um episódio menor nem como simples “ruído interno”. Pelo contrário: exige um balanço político sério, sobretudo num momento em que o CHEGA se afirma como força relevante na Região Autónoma da Madeira.
Esse balanço deve, inevitavelmente, chegar à liderança nacional do partido e, em particular, a André Ventura, hoje o dirigente partidário mais votado na Madeira e aquele em quem muitos madeirenses colocaram expectativas de mudança, renovação e responsabilidade.
Importa começar por uma distinção essencial: o CHEGA não é um partido de violência nem de terrorismo. É um partido de direita conservadora, com traços populistas, classificação discutível, mas que nada tem a ver com práticas de intimidação sistemática ou de “terror”, ainda que sempre entre aspas e usadas apenas como metáfora crítica. O CHEGA não nasceu para isso, nem pode aceitar esse rótulo por associação indireta a comportamentos locais.
No entanto, é precisamente aqui que reside o problema político do CHEGA Madeira. Ao longo do tempo, têm sido apontadas, por militantes, ex-militantes e pessoas que passaram pela estrutura regional, práticas internas de forte pressão, intimidação política e desgaste pessoal, que não resolvem conflitos nem constroem soluções, mas antes acentuam divisões e consomem quadros.
O CHEGA não é, nem pode ser, um partido de fogo ou de queima. A sua narrativa fundadora assenta numa ideia de reconstrução nacional, após décadas de bloqueios estruturais. Reconstruir exige agregar, integrar e qualificar, não afastar sistematicamente quem não se submete a lógicas internas de controlo.
O caso concreto dos vereadores do Funchal torna esta contradição visível. Ambos têm percursos políticos anteriores conhecidos, incluindo passagem pelo PSD. Têm experiência autárquica, perfil técnico e capacidade operacional. Não representam um CHEGA incendiário, mas um CHEGA mais institucional e executivo, precisamente o tipo de quadros que o partido dizia querer captar.
Aparentemente, esta transição não foi compreendida, ou não foi aceite, pela atual estrutura regional do partido, liderada por Miguel Castro e pela esposa de Francisco Gomes. Estruturas que, segundo múltiplos relatos, funcionam mais numa lógica de desgaste interno do que de crescimento sustentado.
Os resultados recentes mostram que os madeirenses confiam em André Ventura, mas também lhe enviam uma mensagem clara: olhar para a Madeira não é apenas olhar para os votos, é olhar para o partido. O futuro do CHEGA na Região não depende de mais ruído, mas de mais estrutura; não de mais conflitos internos, mas de mais responsabilidade política.
E talvez ainda venha a tempo.
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