Uns lavam, outros ganha, os madeirenses pagam. Que lata esta burocracia que cobra a Madeirenses para visitar o património "natural". Todos vão pagar para os amigos depois explorarem.
H
á decisões políticas que não são apenas erradas, são reveladoras do calibre de governantes que temos. A recente portaria que obriga emigrantes madeirenses a pagar taxas para aceder a percursos pedestres, quintas e jardins públicos diz muito mais sobre quem governa do que sobre quem protesta. Os residentes já passaram pelo mesmo, vivemos cá mas a ilha é de estrangeiros. E depois o "Chega" explode nas Presidenciais, não governam para madeirenses...
O Governo Regional decidiu que não residir na Madeira equivale a ser turista, mesmo quando se nasceu na Região, se manteve a nacionalidade portuguesa e se carrega uma ligação identitária, familiar e afetiva que nenhum certificado de residência consegue medir. É uma decisão administrativamente cómoda, financeiramente curta e politicamente desastrada. Há outras situações, mas esta vai acentuar a abertura de olhos de muitos que estendem o tapete a qualquer um do Governo que decide ganhar milhas na TAP.
Os emigrantes revoltados têm razão. E talvez tenham ainda mais autoridade moral para falar porque não precisam de ninguém na terra. Não dependem de favores, subsídios, nomeações ou fotografias de campanha. Vivem fora da engrenagem do poder regional e, por isso mesmo, dizem o que muitos pensam mas poucos arriscam dizer em voz alta, esta medida é discriminatória, injusta e indigna. Deve ser por isso que se agarram ao Subsídio Social de Mobilidade do continente como se por cá não discriminassem também.
A diferenciação entre residentes e não residentes, pode até parecer neutro à primeira vista, mas falha redondamente quando aplicado sem critério humano. Tratar emigrantes como visitantes ocasionais é apagar décadas de discurso político que sempre exaltou a diáspora como “parte essencial da Madeira”. Afinal, são essenciais apenas quando enviam remessas, promovem a Região lá fora ou regressam no verão para encher restaurantes?
Mais grave ainda é a tentativa recorrente de diluir responsabilidades, insinuando que se trata de um enquadramento imposto “de fora”. Não é. A decisão é regional, a portaria é regional, a margem de escolha existia. A autonomia, tantas vezes brandida como escudo político, desaparece curiosamente quando é preciso assumir erros.
Eduardo Jesus volta a falhar onde tantas vezes falha, na leitura social e simbólica das decisões que toma. Governar não é apenas gerir receitas ou cumprir rácios. É perceber que o território também é memória, pertença e respeito. Cobrar a um madeirense emigrado para caminhar num trilho da sua infância não é apenas cobrar uma taxa, é passar uma fatura emocional que a Região não precisava de emitir.
Eduardo Jesus que berço teve? Parece muito desviado da realidade. Ou será do perfil. Ouve alguém?
As consequências vão além do imediato. Medidas como esta afastam a diáspora, criam ressentimento e corroem uma relação histórica que levou gerações a manter viva a ligação à ilha, mesmo a milhares de quilómetros de distância. Tudo isto por uma receita marginal, obtida à custa de um capital simbólico muito maior.
Os madeirenses estão fulos e a diáspora vai ficar, só os miras com bombons se manterão fiéis. Estas decisões dizem tudo. Um parêntesis, já repararam que ninguém fala que a democrata venezuelana que quer o poder "vendeu" o seu país com a gula do poder? É preciso medir consequências... na Madeira também.
Talvez esta polémica sirva, pelo menos, para uma reflexão tardia, a Madeira não se defende cobrando entrada aos seus próprios filhos. Defende-se reconhecendo-os, respeitando-os e lembrando-se de que emigrar nunca foi deixar de ser madeirense.
E nisso, os emigrantes livres, distantes e descomprometidos estão a dizer uma verdade incómoda que o poder regional faria bem em escutar.
A página 3 do DN Madeira merece ser lida hoje. Acordaram do monstro que foram criando?
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